| "Criamos os
filhos para o mundo." Lembro de ter ouvido essa frase quando
tinha 15 anos. Apesar de não ter dado muita atenção na época,
logo percebi como eram sábias as palavras da minha mãe. Saí de
casa aos 19 anos, partindo de Mogi das Cruzes, interior de São
Paulo, para a capital paulista. Era tudo o que sempre havia
sonhado: faculdade e liberdade.
Longe dos olhos e da proteção dos
pais (sem falar na roupa lavada e passada), me descobri
dividindo pela primeira vez um quarto com uma desconhecida e um
banheiro com outras 26 universitárias. Chorei na primeira noite.
Na segunda reclamei da falta da televisão. Em um pensionato de
freiras tudo passa a ser compartilhado. Do telefone público (o
aparelho mais desejado pelas adolescentes) às frutas deixadas na
geladeira.
Até então, nunca tinha
acreditado na afirmação sofrer é crescer. Afinal, atingira
maioridade sempre significou liberdade, ou seja, fazer tudo o
que era proibido na adolescência. Ao pisar fora do território
familiar, me deparei com as vantagens e as desvantagens de viver
só. Tarefas domésticas como lavar a roupa, passar, fazer
supermercado e cozinhar ganharam prioridade. Anos depois, quando
fui estudar na Inglaterra, lembro da cena de um garoto de 17
anos, numa lavanderia, colocando duas enormes trouxas de roupa
em três máquinas de lavar. Meias, toalhas e panos de prato
dividiram a mesma água e o mesmo sabão em pó. 0 resultado foi
catastrófico: peças esverdeadas e a certeza de que manter a
roupa limpa, passada e sem manchas não é fácil.
Em diversos países, sair de
casa jovem é um rito de passagem natural para a vida adulta. Uma
espécie de serviço militar obrigatório para deixar de lado a
dependência doméstica e provar que é possível se virar sozinho.
Nos Estados Unidos, alguns estudantes preferem morar em
alojamentos universitários mesmo quando a casa dos pais está
localizada na mesma cidade. Além de ser encarado como uma forma
de aproveitar ainda mais os anos da universidade, há uma certa
pressão familiar para que os filhos cortem logo o cordão
umbilical com os pais.
Nos países de cultura latina, a
situação é outra. Uma pesquisa publicada em 1996 na Espanha
revelou que, apesar da taxa de desemprego ser o dobro da taxa
alemã, boa parte dos jovens desempregados espanhóis viviam
melhor dos que os sem trabalho da Alemanha porque viviam com os
pais.
No Brasil, as condições
econômicas tornam o ato de sair de casa um privilégio. Mas é
claro que essa não é a única razão para ver tantos jovens de
classe média - muitos deles com mais de 30 anos - protegidos no
ninho dos pais. Além das diferenças culturais, há uma certa
mentalidade que não estimula a autonomia dos jovens no país.
Talvez o traço mais visível dessa mentalidade seja a resistência
que os jovens brasileiros têm para aceitar trabalhos
considerados "menos nobres". É incrível como, por aqui, tarefas
como trabalhar em fast-foods, servir mesas em restaurantes e
carregar malas em hotéis são vistas com menosprezo. Os pais
também são culpados disso. Preferem ver os filhos fazendo nada
sob suas asas a tê-los exercendo uma atividade "não tão nobre"
como primeiro emprego. Em vez de se orgulharem de vê-los
batalhando seu espaço no mercado de trabalho, ficam preocupados
com o que as outras famílias vão pensar - como se eles não
fossem capazes de sustentar sua prole.
É bem provável que esse
comportamento típico da classe média brasileira seja uma herança
da velha mentalidade da casa grande nas antigas fazendas, quando
as famílias abastadas preparavam os seus filhos para se tornarem
bacharéis e deixavam para os escravos todas as outras tarefas.
Sem a disposição para ganhar
dinheiro antes de receber um diploma, perde-se a oportunidade de
desenvolver o espírito empreendedor e de ganhar auto-suficiência
para realizar tarefas domésticas. Ironicamente, boa parte dos
jovens brasileiros somente ganham essa autonomia quando podem
estudar em outro país. Lá fora, trabalhar como baby-sitter e
regar plantas para complementar a renda é algo absolutamente
normal.
É normal no Brasil ver jovens
entediados clamando por autonomia sentados no sofá em frente à
televisão. Mas como alguém pode ser independente sem ralar um
pouco pela própria grana e pelo próprio futuro?
Artigo de: Fernanda Campanelli
Massarotto
Superinteressante Agosto 2001 |