|
HISTÓRIA DO DINHEIRO NO BRASIL
Do descobrimento ao Reino Unido
As Primeiras Moedas
-
No início do
período colonial, o meio circulante brasileiro foi sendo formado de
modo aleatório, com as moedas trazidas pelos colonizadores,
invasores e piratas que comercializavam na costa brasileira. Assim,
ao lado das moedas portuguesas, circularam também moedas das mais
diversas nacionalidades, cuja equivalência era estabelecida em
função do seu valor intrínseco (conteúdo metálico).
-
A partir de 1580,
com a formação da União Ibérica, verificou-se uma afluência muito
grande de moedas de prata espanholas (reales), provenientes do Peru,
graças ao florescente comércio que se desenvolveu através do Rio da
Prata. Até o final do século XVII, os reales espanhóis constituíram
a parcela mais expressiva do dinheiro em circulação no Brasil.
-
As moedas
portuguesas que aqui circulavam eram as mesmas da Metrópole,
oriundas de diversos reinados. Cunhadas em ouro, prata e cobre,
essas moedas tinham os seus valores estabelecidos em réis e possuíam
às vezes denominações próprias, como Português, Cruzado, São
Vicente, Tostão, Vintém. A moeda de 1 real, unidade do sistema
monetário, era cunhada em cobre.
Moedas Contramarcadas
-
A longa guerra
mantida contra os espanhóis, após a restauração da independência de
Portugal, custou elevadas somas à coroa portuguesa. Para conseguir
os recursos necessários, D. João IV (1640-1656) e D. Afonso VI
(1656-1667) recorreram a sucessivas alterações no padrão monetário,
determinando reduções nos pesos das novas moedas fabricadas e
procedendo a aumentos no valor das moedas em circulação.
Posteriormente, durante o reinado de D. Pedro (1667-1706), também
foram efetuados aumentos nos valores correntes das moedas.
-
Em algumas ocasiões
esses aumentos foram praticados sem que fossem efetuadas alterações
nas moedas; em outras, foram concretizados mediante a aposição de
contramarcas (carimbos). Dessa forma, foram contramarcadas diversas
moedas portuguesas de ouro e prata e reales espanhóis de prata, em
circulação no reino e nas províncias.
-
Para a aplicação
desses carimbos foram instaladas, nas principais capitanias do
Brasil, oficinas monetárias temporárias, que funcionavam apenas
durante os processos de carimbagem.
Marcas para Evitar o Cerceio
-
A adulteração das
moedas de ouro e prata, pela prática ilegal de raspagem dos bordos
para retirada do metal (cerceio), assumira proporções calamitosas em
Portugal e nos seus domínios, levando D. Pedro II a adotar várias
medidas para impedir a sua continuidade. Dentre essas medidas
encontram-se a colocação de cordão (espécie de serrilha em forma de
cordão) e de marca (esfera armilar coroada, aplicada junto à orla) e
a cunhagem de novas orlas nas moedas de cunhos antigos.
Moedas-Mercadorias
-
Nos dois primeiros
séculos após o descobrimento, face à inexistência de uma política
monetária especial para a Colônia, a quantidade de moedas em
circulação era insuficiente para atender às necessidades locais. Por
esse motivo, diversas mercadorias foram utilizadas como dinheiro,
inclusive pelo próprio governo, sendo comuns os pagamentos
realizados em açúcar, algodão, fumo, ferro, cacau e cravo, entre
outros.
-
Em algumas
ocasiões, o uso de mercadorias como moeda obedeceu a determinações
legais. Em 1614, por exemplo, o Governador do Rio de Janeiro
estabeleceu que o açúcar corresse como moeda legal, ordenando que os
comerciantes o aceitassem obrigatoriamente como pagamento. No
Maranhão, que constituía um estado politicamente separado do Brasil
e onde a principal moeda corrente era o algodão, foi legalmente
estabelecida, em 1712, a circulação do açúcar, cacau, cravo e tabaco
como moeda.
-
Os escravos
africanos chegados ao Brasil utilizaram em suas trocas o zimbo,
concha de um molusco encontrada nas praias brasileiras e que
circulava como dinheiro no Congo e em Angola.
As Moedas Holandesas
-
Cercados pelos
portugueses no litoral de Pernambuco e não dispondo de dinheiro para
pagar seus soldados e fornecedores, os holandeses realizaram a
primeira cunhagem de moedas em território brasileiro. Conhecidas
como "moedas obsidionais" ou "moedas de cerco", estas foram também
as primeiras moedas a trazerem o nome do Brasil. Face à inexistência
de ferramentas e materiais adequados, bem como à urgência do
trabalho, as moedas foram feitas de forma bastante rudimentar.
-
Em 1645 e 1646
foram cunhadas moedas de ouro de III, VI e XII florins e em 1654,
pouco antes da partida, moedas de prata, nos valores de XII, X, XX,
XXX e XXXX soldos, havendo, entretanto, polêmica quanto à
autenticidade dos quatro últimos valores. A inscrição G.W.C.
corresponde às iniciais de "Companhia das Índias Ocidentais", em
holandês.
As Primeiras Casas da Moeda
-
Nas duas últimas
décadas do século XVII agravou-se a situação de falta de moeda no
Brasil, comprometendo o funcionamento da economia e provocando
drástica redução nas rendas da Coroa. Inúmeras representações,
pedindo solução para o problema, foram encaminhadas ao rei pelos
governadores gerais e das capitanias, representantes das câmaras e
membros da igreja e da nobreza. Em 1694, finalmente, D. Pedro II
resolveu criar uma casa da moeda na Bahia, para a cunhagem de moeda
provincial para o Brasil.
-
Todas as moedas de
ouro e prata em circulação na colônia deveriam ser obrigatoriamente
enviadas à Casa da Moeda, para serem transformadas em moedas
provinciais. Essa medida acarretava problemas às demais capitanias,
em função das dificuldades e riscos do transporte. Assim, para
atender às necessidades da população, a Casa da Moeda foi
transferida em 1699 para o Rio de Janeiro e no ano seguinte para
Pernambuco, onde funcionou até 1702. Em 1703, por ordem de D. Pedro
II, foi instalada novamente no Rio de Janeiro, não mais com a
finalidade de cunhar moedas provinciais, mas para transformar o ouro
em moedas para o reino.
-
Foram cunhadas
moedas de ouro, nos valores de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, e de
prata, nos valores de 640, 320, 160, 80, 40 e 20 réis. O conjunto de
moedas de prata é conhecido como série das patacas, em função da
denominação "pataca", atribuída ao valor de 360 réis.
Moedas de Cobre Angolanas
-
Como as casas da
moeda não cunharam moedas de cobre, foi autorizada a circulação no
Brasil de moedas destinadas a Angola, fabricadas na cidade do Porto,
nos valores de 10 e 20 réis. Essas moedas eram necessárias para as
transações de pequeno valor.
O Ouro se Transforma em Moeda
-
Na primeira metade
do século XVIII, a elevada produção de ouro possibilitou o
funcionamento simultâneo de três casas da moeda e a cunhagem de
grande quantidade de peças, cujos valores e beleza testemunham a
opulência que caracterizou o período do reinado de D. João V
(1706-1750).
-
Inicialmente foram
cunhadas, nas casas da moeda do Rio de Janeiro (1703) e da Bahia
(1714), moedas idênticas às do Reino: moeda, meia moeda e quartinho,
com valores faciais de 4.000, 2.000 e 1.000 réis . Embora com as
mesmas denominações das moedas provinciais, essas peças possuíam
maior peso e seu valor de circulação era 20% superior ao valor
facial.
-
O estabelecimento
de uma casa da moeda em Minas Gerais foi determinado em 1720, quando
da proibição da circulação do ouro em pó dentro da capitania. Além
de moedas iguais às cunhadas no Reino, no Rio e na Bahia, a nova
casa da moeda deveria fabricar peças com valores nominais de 20.000
e 10.000 réis, as quais circulariam com os valores efetivos de
24.000 e 12.000 réis. Instalada em Vila Rica, a casa da moeda de
Minas funcionou no período de 1724 a 1734.
-
Em 1722 D. João V
alterou a forma e o valor das moedas de ouro portuguesas, criando a
série dos escudos, com os valores de 12.800 réis (dobra de 8
escudos), 6.400 réis (dobra de 4 escudos), 3.200 réis (dobra de 2
escudos), 1.600 réis (escudo) e 800 réis (1/2 escudo). Cunhadas no
Brasil a partir de 1727, essas moedas trazem no anverso a efígie do
rei. Dentro dessa série foi introduzida, em 1730, a peça de 400 réis
(cruzadinho).
Moedas de Ouro de D. José I e D.
Maria I
-
Nos reinados de D.
José I (1750-1777) e de D. Maria I (1777-1805), continuou sendo
cunhada a série dos escudos, com exceção da peça de 12.800 réis,
cuja cunhagem havia sido suspensa por D. João V, em 1732. Voltaram
também a ser fabricadas as moedas provinciais de ouro, nos valores
de 4.000, 2.000 e 1.000 réis, que não eram cunhadas desde 1702.
-
Nos escudos de D.
Maria, as efígies representam duas fases distintas de seu reinado.
Na primeira ela aparece ao lado do marido, D. Pedro III. Após a
morte deste, em 1786, é retratada sozinha, primeiro com um véu de
viúva e depois com um toucado ornado com jóias e fitas.
Moedas da Série "J"
-
Em 1750 D. José
proibiu a circulação de moedas de ouro nas regiões de mineração,
considerando que as transações comerciais naquelas comarcas poderiam
ser realizadas com barras de ouro marcadas e ouro em pó. Para
atender às necessidades do comércio miúdo na região, mandou que as
casas da moeda do Rio de Janeiro e da Bahia cunhassem moedas
provinciais de prata e cobre.
-
Em 1752,
entretanto, atendendo à sugestão do governador da capitania de
Minas, determinou que fossem cunhadas também moedas de prata com os
valores de 600, 300, 150 e 75 réis, tendo em vista que os preços nas
regiões das minas eram estabelecidos em termos de oitavas e de seus
submúltiplos, valendo a oitava de ouro não quintado 1.200 réis.
-
Para evitar
confusão com as moedas provinciais de prata de 640, 320, 160 e 80
réis, em função da proximidade dos valores, nas novas moedas o
escudo com as armas de Portugal foi substituído por um "J" com uma
coroa em cima.
Moedas de Cobre no Século XVIII
-
Durante o reinado
de D. João V, a Casa da Moeda de Lisboa fabricou moedas de cobre de
10 e 20 réis, especialmente destinadas ao Brasil. Moedas com esses
mesmos valores foram cunhadas também pela Casa da Moeda da Bahia,
que em 1729 realizou a primeira cunhagem de moedas de cobre no
Brasil.
-
Em 1730 foram
enviadas para Minas moedas de cobre cunhadas em Lisboa em 1722, nos
valores de 20 e 40 réis, com pesos bastante reduzidos, as quais
deveriam circular apenas naquela capitania.
-
No reinado de D.
José I, entraram em circulação moedas provinciais de cobre nos
valores de 5, 10, 20 e 40 réis, cunhadas em Lisboa e no Brasil.
-
Sob o reinado de D.
Maria I, não houve cunhagem de cobre no Brasil. Todas as moedas
foram fabricadas em Lisboa, mantendo inicialmente os mesmos pesos e
valores do período anterior. Em 1799, entretanto, já sob a regência
de D. João, as moedas de cobre tiveram seus pesos reduzidos em cerca
de 50%.
Bilhetes da Extração - Primeira
Moeda-Papel
-
A partir de 1772, a
extração de diamantes na região do Tejuco do Serro Frio (atual
Diamantina) passou a ser feita diretamente pela Coroa Portuguesa,
que para isso criou a Real Extração dos Diamantes.
-
Quando havia
insuficiência de recursos para o custeio das despesas, a
Administração dos Diamantes emitia bilhetes que eram resgatados
quando chegavam os suprimentos em moeda remetidos pela Fazenda Real.
No início esses bilhetes tinham grande credibilidade, sendo aceitos
em todas as transações comerciais da região.
Moedas para o Maranhão e Grão-Pará
-
Em 1748 D. João V
determinou a cunhagem de moedas provinciais de ouro, prata e cobre
para o Estado do Maranhão e Grão-Pará, no total de 80 contos de
réis. Cunhadas em 1749, pela Casa da Moeda de Lisboa, essas moedas
tinham as mesmas denominações e pesos das moedas provinciais
brasileiras.
-
Segundo depoimentos
da época, a introdução dessa moeda provocou grande confusão no
Estado, uma vez que os preços dos salários e de todos os produtos
estavam fixados em termos de algodão e especiarias
Barras de Ouro e Certificados
-
Com o objetivo de
garantir a cobrança do imposto do quinto, foram estabelecidas casas
de fundição nas principais regiões auríferas do país, para as quais
deveria ser levado todo o ouro extraído.
-
Depois de deduzida
a quinta parte, o ouro era fundido e transformado em barras, nas
quais eram registrados o ano, a marca oficial da casa de fundição, o
número de ordem, o título e o peso do ouro. Assim legalizado, o ouro
era devolvido a seu proprietário, acompanhado de um certificado.
-
Essas barras
tiveram ampla circulação no Brasil, desempenhando a função de moeda,
particularmente nas capitanias do interior.
A Moeda de 960 Réis
-
O declínio da
produção de ouro no Brasil levou D. João a proibir, em 1808, a
circulação do ouro em pó, com o objetivo de impedir seu desvio, que
acarretava grandes prejuízos à Coroa. Todo o ouro em pó deveria ser
levado às casas de fundição; as parcelas de peso equivalente ou
superior a 1 onça (28,6875 g) seriam fundidas em barras e as de peso
inferior, resgatadas em moedas.
-
Para suprir o meio
circulante das regiões de mineração, foi autorizada a circulação de
moedas de ouro, que estava proibida desde 1750, e a nacionalização
de moedas hispano-americanas de prata.
-
Os pesos espanhóis
(8 reales), que valiam entre 750 e 800 réis, receberam carimbo de
960 réis, inicialmente na capitania de Minas Gerais (1808) e mais
tarde na do Mato Grosso (1818).
-
Em 1809 foi criada
a moeda provincial de 960 réis, cuja cunhagem teve início em 1810.
Carimbos de Escudete
-
Para uniformizar o
meio circulante brasileiro, onde moedas do mesmo metal e do mesmo
peso tinham valores diferentes, D. João determinou, em 1809, a
aposição de carimbo em forma de escudete nas moedas da série "J",
para equipará-las às da série das "patacas", e nas moedas de cobre
cunhadas antes de 1799, para duplicar seus valores.
D. João, Príncipe Regente e Rei
-
Embora D. João
tenha assumido a regência em 1799, durante alguns anos as moedas
continuaram sendo cunhadas com o nome de D. Maria I. As primeiras
moedas de ouro cunhadas com a legenda "João Príncipe Regente" foram
produzidas em 1805, antes de sua chegada ao Brasil.
-
A elevação do
Brasil à condição de Reino Unido foi registrada nas peças em ouro,
prata em cobre cunhadas em 1816, com a legenda "João, por Graça de
Deus, Príncipe Regente de Portugal, Brasil e Algarves".
-
Com a aclamação de
D. João como D. João VI, em 1818, as moedas passaram a ter as armas
do Reino Unido e a legenda "João VI, por Graça de Deus, Rei de
Portugal, Brasil e Algarves".
Troco do Ouro em Pó
-
Face à inexistência
de moedas de pequeno valor que se ajustassem ao troco de pequenas
quantidades de ouro em pó, D. João estabeleceu que o mesmo fosse
feito também com bilhetes impressos nos valores de 1, 2, 4, 8, 12 e
16 vinténs de ouro, correspondendo cada vintém a 37 e 1/2 réis.
Emitidos em grande quantidade, esses bilhetes tiveram ampla
circulação na capitania de Minas, integrando o seu meio circulante.
Posteriormente, em função do aparecimento de grande número de
bilhetes falsificados, sua emissão foi suspensa.
-
Em 1818 foram
cunhadas moedas de cobre nos valores de 75 réis e 37 e 1/2 réis,
para a realização do troco do ouro em pó.
Notas do Banco do Brasil
-
A criação do Banco
do Brasil, por meio de Alvará de 12 de outubro de 1808, teve por
principal objetivo dotar a Coroa de um instrumento para levantamento
dos recursos necessários à manutenção da corte.
-
De acordo com seus
estatutos, o banco deveria emitir bilhetes pagáveis ao portador, com
valores a partir de 30 mil réis. As emissões do Banco tiveram início
em 1810 e a partir de 1813 foram emitidos bilhetes com valores
abaixo do limite mínimo inicialmente estabelecido.
-
Entre 1813 e 1820,
as emissões atingiram 8.566 contos de réis, em grande parte
determinadas pelo fornecimento de moeda-papel para fazer face às
crescentes despesas da corte e da administração régia, que
anualmente excediam a receita arrecadada. A partir de 1817, os
bilhetes do Banco começaram a perder a credibilidade, sofrendo
grande desvalorização.
-
Em abril de 1821,
antes de regressar a Portugal, o rei e toda a sua corte resgataram
todas as notas em seu poder, trocando-as por moedas, metais e jóias
depositados no Banco, obrigando a instituição a suspender, a partir
de julho, a conversibilidade dos bilhetes.
|
Nova pagina 2
|