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Sócrates
- (470-399 a.C) A biografia de Sócrates é
contada por Xenofonte e Platão principalmente
nos livros Apologia de Sócrates e
Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates do
primeiro e Apologia de Sócrates e Fédon
do segundo. Era Ateniense, filho de uma
parteira chamada Fenarete, e de um escultor,
chamado Sofronisco. Recebeu uma educação
tradicional, estudando a obra de Homero (A Ilíada
e A Odisséia, que contam, como vocês
sabem, a história da guerra de Tróia, dos
gregos contra os troianos, e do retorno do herói
Ulisses para sua terra natal . São de caráter
épico. Muitos chegaram a duvidar da existência
de Homero, ou disseram que ele seria só um
coletor de contos do folclore popular, e não o
legítimo autor.) Desde a juventude
interessou-se pela filosofia, e conhecia o
pensamento anterior e contemporâneo dos filósofos
gregos. Interessava-se pela conversa em locais públicos,
e fazia muitas andanças conversando nas praças
e mercados. Participou do movimento de renovação
da cultura e foi um educador popular. Nunca
trabalhou e só pensava no presente. Muitas
vezes, só comia quando seus discípulos o
convidavam para suas mesas. Foi casado com
Xantipa, mas não parava em casa. Teve três
filhos. Participou, como soldado, de incursões
militares como as de Potidéia, Delos e Anfipólis.
Recebeu reconhecimento por alguns feitos de
bravura, como quando salvou Xenofonte (ou
segundo outras fontes Alcíbiades), tombado, com
seu próprio corpo. De ínicio, interessava-se
pelos ensinamentos dos filosófos da natureza,
como Anaxágoras, mas depois revoltou-se contra
eles, pois eles haviam sido filósofos físicos,
que procuravam respostas nas causas exteriores e
gerais da natureza. Achava que existe algo mais
digno para se estudar, existe a psyche,
ou a mente do homem. Por isso, sondou a alma
humana , em questões como a da facilidade de
justiça dos atenienses, porque esses lidam com
tanta facilidade com a vida e a morte, honra,
patriotismo, moralidade. Em que se baseiam? E o
que entendem por eles próprios? Assim descobriu
que o homem é sua alma, e não o corpo, pois o
que manipula o corpo é a alma. Foi contra os
sofistas, por achar que a verdade é apenas uma,
e condenavam seu relativismo.
Os sofistas foram mestres
da oratória, que vendiam para os cidadão suas
habilidades com o discurso, fundamental para a
política. Assim, defendiam a opinião de quem
lhes pagasse bem. Acreditavam que a verdade vêm
do consenso entre os homens. Os principais foram
Górgias, Protágoras e Hipías. Para eles a
realidade sensível não é inteligível, a
linguagem é arbitrária, as palavras traem os
pensamentos. Como afirma a frase de Protágoras
de Abdera, "o homem é a medida de todas as
coisas", para o homem. Por isso não
existiriam coisas como o frio real. O frio é
frio apenas para quem o sente. E também não
existiriam um sentimento natural de pudor. Os
sofistas destruíram a fé que a juventude tinha
nos deuses do Olimpo e no código moral que se
baseava no medo da divindade.
Sócrates usava nas suas
conversas com os cidadãos um método chamado
maiêutica, que consiste em forçar o
interlucutor a desenvolver seu pensamento sobre
uma questão que ele pensa conhecer, e po-lo em
contradição. Tem uma frase famosa "Só
sei que nada sei". Já a frase
"Conhece-te a ti mesmo", apesar de
muitas vezes a ele atribuída, era um dos
pilares da sabedoria grega, sendo por isso
inscrita no pórtico do Oráculo de Delfos. O
verdadeiro filósofo sabe que sabe muito pouco,
e ele se autodenominava assim. A palavra
filosofia significa amizade ao saber. As etapas
do saber seriam: ignorar sua ignorância,
conhecer sua ignorância, ignorar seu saber e
conhecer seu saber. As opiniões não são
verdades pois não resistem ao diálogo crítico.
Conversar com Sócrates podia ser expor-se ao
ridículo, e ser apanhado numa complexa linha de
pensamento exposta através de palavras, ficar
totalmente envolvido. No diálogo Teeteto
de Platão, compara sua atividade à de uma
parteira (como sua mãe), que embora não desse
a luz à um bebê, ajudava no parto. Ele diz que
ajudava as pessoas a parirem suas próprias idéias.
Diz que Atenas era uma égua preguiçosa, e ele
um pequeno mosquito que lhe mordia os flancos
para provar que estava viva. Achava que a
principal tarefa da existência humana era
aperfeiçoar seu espírito. Acreditava ouvir uma
voz interior, de natureza divina (um daimon),
que lhe contava a verdade, e para ele só
existia um deus. Era capaz de ficar horas imerso
em si mesmo, em profundos momentos de reflexão.
Não foi por acaso que a Pitía, do oráculo de
Delfos, o proclamou como o homem mais sábio de
Atenas quando o amigo de juventude de Sócrates,
Querefonte, foi interrogá-la.
Sócrates foi convidado
para o Senado dos quinhentos, e manifestou sua
convicção de liberdade combatendo as medidas
que considerava injustas. A democracia estava se
implantando em Atenas, e Sócrates respondia
qual era o melhor Estado, como poderia se salvá-lo.
Os homens mais sábios deviam governá-lo, pois
eles podem controlar melhor seus impulsos
violentos e anti-sociais. Assim, nos afastaríamos
do comportamento de um animal. O Estado não
confiava na habilidade e reverenciava mais o número
do que o conhecimento. Portanto, Sócrates era
aristocrático, pois há inteligência que baste
para se resolver os assuntos do Estado.
A reação do partido
democrático de Atenas não poderia ser outra.
Em um juri de cinquenta pessoas, foi acusado,
condenado por negas os deuses do Estado e por
"perverter a juventude de Atenas".
Muitos jovens seguiam Sócrates, e tornavam-se
seus discípulos. Anito, um líder democrático
tinha um filho discípulo de Sócrates, que ria
dos deuses do pai, voltava-se contra eles. Sócrates
foi considerado, aos setenta anos, líder
espiritual do partido revoltoso. Foi condenado a
morte, e devia tomar cicuta (um veneno). Podia
ter fugido da prisão, ou pedido clemência, ou
ter saído de Atenas, mas não quis. Assim, se
tornou o primeiro mártir da filosofia. Não
deixou nenhuma obra escrita. Sua morte nos é
contada por Platão, que foi um de seus discípulos,
e fiz aqui um resumo:
"(...) Ele se
levantou e se dirigiu ao banheiro com Críton,
que nos pediu que esperássemos, e esperamos,
conversando e pensando (...) na grandeza de
nossa dor. Ele era como um pai do qual estávamos
sendo privados, e estamos prestes a passar o
resto da vida orfãos. (...) A hora do pôr do
sol estava próxima, pois ele tinha passado um
longo tempo no banheiro .(...) Pouco depois, o
carcereiro entrou e se postou perto dele,
dizendo:
-A ti, Sócrates, que
reconheço ser o mais nobre, o mais delicado e o
melhor de todos os que já vieram para cá, não
irei atribuir sentimentos de raiva de outros
homens(...) de fato, estou certo de que não
ficarás zangado comigo, porque como sabes, são
os outros , e não eu o culpado disso. E assim,
eu te saúdo, e peço que suportes sem amargura
aquilo que precisa ser feito, sabes qual é a
minha missão - e caindo em prantos, voltou-se e
retirou-se.
Sócrates olhou para ele
e disse:
- Retribuo tua saudação,
e farei como pedes.- E então, voltando-se para
nós disse:- Como é fascinante esse homem;
desde que fui preso, ele tem vindo sempre me
ver,e agora vede a generosidade com que lamenta
a minha sorte. Mas devemos fazer o que ele diz;
Críton, que tragam a taça, se o veneno estiver
preparado.(...)
Críton, ao ouvir isso
fez um sinal para o criado, o criado foi até lá
dentro, onde se demorou algum tempo; depois
voltou com o carceireiro trazendo a taça de
veneno. Sócrates disse:
-Tu, meu bom amigo, que
tem expêriencias nesses assuntos, irá me dizer
como devo fazer.
O homem repondeu:
- Basta caminhar de um
lado para outro, até que tuas pernas fiquem
pesadas., depois deita-te e o veneno agirá.-Ao
mesmo tempo estendeu a taça a Sócrates, (..)
que segurou-a (...)
E então levando a taça
aos lábios, bebeu rápida e decididamente o
veneno.
Até aquele instante a
maioria de nós conseguira segurar a dor; mas
agora, vendo-o beber e vendo, também que ele
tomara toda a bebida, não pudemos mais nos
conter; apesar de meus esforços, lágrimas
corriam aos borbotões. (...) Apolodoro, que
estivera soluçando o tempo todo, irorrompeu num
choro alto que transformou-nos a todos em
covardes. (...)
E então, o próprio Sócrates
apalpou as pernas e disse:
-Quando chegar ao coração,
será o fim.- (...) e disse aquelas que seriam
as suas últimas palavras:
- Críton, eu devo um
galo a Esculápio, vais lembrar de pagar a dívida?
-A dívida será paga -
disse Críton. (...)
Foi esse o fim de nosso
amigo, a quem posso chamar sinceramente de o
mais sábio, mais justo e melhor de todos que
conheci. "
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