Saúde e Higiene: A violência no divã

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Fonte do texto: Internet


Cresce a procura por tratamentos psicológicos para traumas provocados por crimes urbanos, como assaltos e seqüestros

TELMA ALVARENGA

Assaltos, sequestros relâmpagos, tiroteios entre policiais e bandidos no caminho de casa. A rotina de violência nas grandes cidades do país leva um número cada vez maior de pessoas a buscar a ajuda de psiquiatras e psicólogos. Os especialistas, por sua vez, discutem o tema e adaptam técnicas - algumas usadas no tratamento de veteranos de guerra - para a ajudar seus pacientes a desatar um complexo nó emocional da sociedade moderna: o medo.

Há psicoterapias que podem durar apenas dez sessões
No hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há um ano, são atendidas de graça as vítimas de crimes que desenvolvem o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), problema comum entre sobreviventes de catástrofes, como o tsunami, na Ásia. A onda de seqüestros em São Paulo levou à criação, no Hospital das Clínicas da USP, de um serviço para tratar, gratuitamente, de quem passou por esse drama. Além disso, consultórios de adeptos das chamadas terapias breves - que prometem tratamento rápido e eficaz - são cada vez mais procurados por reféns da violência.

No divã, frias estatísticas de crimes urbanos se traduzem em histórias recheadas de sofrimento. A química Sílvia Ferreira de Gouveia, de 40 anos, sofreu um assalto, há sete anos, em São Paulo. Foi rendida dentro do carro de uma amiga por bandidos armados, que queriam levá-las junto com o automóvel. Elas relutaram, e os assaltantes, nervosos, acabaram levando só o carro. Sílvia manteve-se calma. Logo, a aparente tranqüilidade transformou-se em horror. Na delegacia, ela desmaiou. Durante muito tempo não podia ver ninguém se aproximar de seu carro - como um pobre pedindo esmola - que começava a tremer e a gritar. ''Eu urrava, assustava os mendigos'', conta.

Sílvia procurou ajuda no consultório da psicóloga Magda Pearson, que trabalha com a mais nova dessas terapias, a EMDR (a sigla em inglês para dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares), método criado pela psicóloga americana Francine Shapiro, nos anos 80, para tratar traumas. Francine constatou nela mesma, por acaso, que rápidos movimentos oculares bilaterais, parecidos com os que ocorrem durante o sono, ajudavam a diminuir o sofrimento provocado por lembranças perturbadoras. Ela desenvolveu a técnica do EMDR e a experimentou, em 1988, em 22 voluntários, entre veteranos da Guerra do Vietnã e vítimas de estupro ou abuso sexual. Pesquisadora do Instituto para Pesquisa Mental de Palo Alto, na Califórnia, hoje ela usa o EMDR com policiais.

O método de ''dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares'' envolve exercícios aparentemente inócuos, como pedir ao paciente que acompanhe o movimento dos dedos do psicólogo de um lado para outro ou alternar tapinhas nos em joelhos. Enquanto isso, o terapeuta pede que ele recorde a cena mais traumática do episódio de violência e pergunta que emoção está sentindo. ''Vamos dando novos significados àquela experiência e a própria pessoa faz associações com outras situações que viveu'', diz a psicóloga Márcia Mathias. O psicólogo José Mauro Garcia diz que os estímulos corporais provocam reações neurológicas e ajudam na cura. ''Os recursos internos que a pessoa tem para sair do trauma aparecem'', afirma.

VIOLÊNCIA SEXUAL E MEDO
Maria do Carmo Dias, de 54 anos, buscou ajuda no EMDR

A psicóloga sofreu uma tentativa de estupro no Rio, há cinco anos. O agressor era um conhecido e tentou violentá-la dentro da própria casa. Maria do Carmo lutou e conseguiu expulsar o sujeito. Depois disso, passou a ter medo de tudo. ''Lia uma notícia de crime no jornal e começava a tremer'', conta. Quando falava sobre o episódio, perdia a voz. Buscou ajuda no consultório da psicóloga Márcia Mathias, que trabalha com EMDR. O tratamento, segundo ela, foi tão eficaz que decidiu fazer o curso e hoje aplica a técnica em seus pacientes.

Nova ONG trata autores e vítimas de violência

TELMA ALVARENGA


Só para homens

Uma nova ONG, no Rio, vai tratar autores e vítimas da violência

Luciana Whitaker/EPOCA

CASADOS HOMENS Fernando Acosta e sua equipe.
Em março, será inaugurada no Rio a Casa dos Homens, ONG voltada para autores e vítimas de violência, só do sexo masculino. Os criadores são ex-integrantes do Noos, instituição que criou um projeto pioneiro na questão da violência doméstica junto a Juizados Especiais. No lugar de cumprir penas alternativas, como distribuição de cestas básicas, os condenados participam de reuniões com psicólogos, médicos e sociólogos, para refletir sobre seu cotidiano, rever suas atitudes violentas e discutir temas como direitos humanos.

A idéia, agora, é trabalhar não só com violência doméstica, mas com outros crimes em que também cabe a pena alternativa, como brigas em boates. Os condenados seriam obrigados a atuar em instituições ambientais e teriam o direito de participar das reuniões da ONG como um benefício. Estão previstos convênios com seis juizados especiais criminais. Também serão feitas ações preventivas. ''Queremos ir nos botequins, nas escolas, nas empresas'', explica Fernando Acosta, coordenador da Casa dos Homens.

As vítimas participarão de grupos reflexivos separados e poderão ser encaminhadas para tratamento psicológico. ''Vamos lidar tanto com o pitboy que espanca o homossexual quanto com o agredido'', diz Acosta.

A proposta da Casa dos Homens encantou Ivan Lins, que compôs o ''Samba da Paz'', inspirado no projeto.

FONTE: revista ÉPOCA de 28/fevereiro/2005 - Edicao 354 - A Violencia no Divã

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