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I - ABORTAMENTO
Define-se abortamento como sendo a perda
gestacional que ocorre até 20/22 semanas (ou peso
fetal de 500g). Abortamento espontâneo ocorre em cerca
de 10 a 15% de todas as gestações sendo, muitas
vezes, ocorrência de primeira gravidez. Isto geralmente
propicia alto grau de insegurança, tanto para a gestante
como para os familiares. Mas se seguido de gravidez normal,
não requer, em princípio, maiores cuidados.
A ocorrência de dois abortamentos, repetidamente,
é bem menor: cerca de 1%; três ou mais abortamentos
sucessivos determinam o "abortamento habitual".
Neste caso, o risco de novos abortamentos para o casal aumenta,
embora a incidência exata não seja determinada.
Causas de abortamento:
- 1. Anomalias dos cromossomos presentes nas células
humanas (50 a 60% dos abortos espontâneos até
as 12 semanas:
- normais = 46XY (sexo masc.) ou 46XX (sexo fem.), isto
é, 23 pares de cromossomos que perfazem o gene
humano, sendo que o par de cromossomos sexuais pode
ser XX (sexo fem.) ou XY (masculino).
- alterados = - trissomias - um determinado par de cromossomos
na realidade éum "trio". A mais comum
é a trissomia do cromossomo 21. Quando não
ocorre abortamento, a gravidez evolui, sendo a criança
portadora da "síndrome de Down" (ou
"mongolismo")
- triploidias - triplicação de todo o
conjunto cromossômico (69XXX, 69XXY, etc.)
- 45XO
- tetraploidias
- translocações e mosaicos, onde ocorre
"cruzamento" entre partes cromossomiais.
2. Anomalias do "ovo":
- Mal formações congênitas - diferem
das cromossomopatias. Aquelas são muito precoces,
além de apresentarem anomalias no interior das
células; estas apresentam anomalias na estrutura
do embrião: anencefalia, ausência de membros,
hérnias diafragmáticas, imperfurações
do tubo digestivo ou urinário, alterações
cardíacas, alterações que causam
surdez, cegueira, etc. (a lista de possíveis
mal formações é tão extensa
que não caberia nesta página) Duas são
as causas: as puramente genéticas e as decorrentes
de alterações externas como radiações,
doenças infecciosas, tumorações
que deformam a cavidade uterina.
- Anomalias da placenta.
- Anomalias do cordão umbilical.
- Anomalias das membranas
3. Doenças ginecológicas:
- Alterações do endométrio (camada
do interior do útero que recebe o ovo para implantação)
decorrentes, por exemplo, de alterações
hormonais maternas que podem causar tanto esterilidade
como abortamento.
- Malformações uterinas - útero
septado, útero bicorno, etc.
- MIOMAS UTERINOS - podem determinar abortamento desde
que ocupem muito o "espaço" do embrião
em virtude da deformidade uterina. Cerca de 40% dos
miomas ocasionam abortamento (embora apenas uma pequena
parte dos abortamentos tenha como causa o mioma uterino).
Os outros 60% "convivem" com a gravidez, podendo
causar diversos tipos de complicações
ou eventualmente até cursar com gravidez "normal".
4. Incompetência istmocervical:
É nome complicado que designa dilatação
anormal do colo uterino; ocorre perda do ovo por impossibilidade
de retenção.
5. Doenças maternas graves. Para citar somente algumas:
- desnutrição grave
- anemias graves
- grandes obesidades
- diabete melito muito descompensado
- hipertensão arterial grave
- cardiopatias descompensadas
- infecções. É importante lembrar
que a rubéola e a toxoplasmose causam complicações
somente uma gravidez. As gravidezes seguintes não
são afetadas por estas infecções.
6. Idade materna:
Causa indireta. Acima dos 35 anos é
maior o risco de anomalias cromossômicas, particularmente
a trissomia do cromossomo 21.
7. Outras causas:
Condições geralmente evocadas por algumas
pacientes, como carregar peso, emoções e sustos,
coito, etc. não são causa de abortamento (veja,
por exemplo, jogadoras profissionais de basquete, vôlei,
nadadoras, etc.). Nem mesmo traumatismos ou intervenções
cirúrgicas são assim considerados.
Quando a causa é evidente (como
doença materna grave) ou mais ou menos evidente (como
a incompetência istmocervical), fica fácil
fazer o diagnóstico. A presença de mioma uterino
faz suspeitar que esta tenha sido realmente a causa, embora
isto não seja totalmente conclusivo, principalmente
pela ausência de cólicas e pela evolução
para aborto retido (sem eliminação do embrião).
Em relação ao embrião,
o diagnóstico não deve ter sido exatamente
o exame do DNA. Se o material estudado foi o colhido do
aborto, o resultado do estudo genético pode ser duvidoso
(a não ser que seja francamente positivo). Além
disso, o material resultante de aborto não permite
o diagnóstico de mal formações.
Portanto, começa a ficar claro que
o diagnóstico da causa é muito difícil.
Mesmo com pré-natal muito bem feito, o abortamento
acaba surpreendendo tanto a mãe quanto o obstetra.
Outro conceito importante é o de que, uma vez desencadeado,
o abortamento segue curso próprio: a gravidez pode
evoluir normalmente (ficando o diagnóstico de "ameaça
de aborto") ou pode ocorrer a perda embrionária
(abortamento incompleto ou aborto retido), independentemente
dos medicamentos administrados (o dactil, como antiespasmódico,
é utilizado para aliviar a dor; a progesterona tem
várias funções, agindo diretamente
sobre o útero).
Um diagnóstico importante é
o que procura pela síndrome de Down, através
de estudo citogenético realizado durante a gravidez:
biópsia de vilocorial (isto é, da placenta
em início de formação), amniocentese
(colheita de líquido amniótico por punção
abdominal) e cordocentese (punção do cordão
umbilical), que identifica os cromossomos embrionários,
seu número e sua forma. É indicado em mulheres
(ou cujos maridos) portadoras, elas mesmas, de anomalias
cromossômicas ou que já tiveram criança
com síndrome de Down. Indica-se também em
mulheres cuja idade é considerada de alto risco para
o aparecimento desta síndrome: acima dos 35 anos
(ou 40 anos, segundo alguns autores).
Para a população de grávidas
que não se enquadram nos critérios acima existe
teste bioquímico triplo ou "Triteste",
que é realizado por alguns laboratórios e
consiste na dosagem sangüínea materna de três
substâncias: alfafetoproteína, estriol e gonadotrofina
coriônica. Este teste é realizado entre 15
e 20 semanas de gestação e serve como rastreamento
inicial. Ainda não é rotina na maioria dos
pré-natais, talvez pelo custo relativamente elevado.
II - MIOMA UTERINO
Os miomas uterinos tendem a aumentar durante
a gravidez, pois são estimulados pelos níveis
elevados de hormônios deste período. Após
a gravidez, tendem a regredir, embora possam jamais desaparecer
por completo.
Não existe tratamento clínico,
embora tentativas sejam feitas com determinados tipos de
hormônio. O único tratamento é o cirúrgico,
com retirada somente do mioma, quando possível, ou
de todo o útero, quando necessário. Somente
necessitam de cirurgia as mulheres com sintomas acentuados:
hemorragias intensas e cólicas intratáveis.
As demais podem conviver muitíssimo bem com seus
miomas, até que sobrevenha a menopausa, quando os
miomas tendem a "murchar".
A ocorrência de mioma juntamente
com a gravidez é comum (veja acima). Não se
pode estabelecer com exatidão o risco. Não
parece provável que mioma de 6, 7 ou até 10
cm, mesmo que intramural, possa determinar aborto retido.
O mais provável é que a gravidez acabe evoluindo
naturalmente, mesmo que apareçam cólicas.
O melhor intervalo entre duas gestações
é de dois anos; após abortamento, desde que
a mãe esteja em boas condições nutricionais,
período mínimo de seis meses é indicado.
Dr. Irineu Wajntraub - Ginecologista e
Obstetra - São Paulo - SP
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