Da década de 70 para cá, os índices de adolescentes
grávidas, tem aumentado consideravelmente, e a média
de idade das gestantes, diminuída. No Brasil, estima-se
que de 20 a 25% do total das mulheres gestantes sejam adolescentes,
ou seja, há uma gestante adolescente para cada cinco mulheres.
A gravidez ocorre geralmente entre a primeira e a quinta relação,
sendo o parto, a principal causa de internação de
brasileiras entre 10 e 14 anos. Muitos são os fatores que
procuram justificar esse aumento no índice de gestantes
adolescentes. Entre eles, está o início cada vez
mais precoce da atividade sexual.
Observamos que a idade em que ocorre a menarca tem se adiantado
em torno de quatro meses por década no nosso século,
o que significa que a mulher está exposta e sujeita a uma
gestação, cada vez mais cedo. Nas classes econômicas
menos favorecidas, onde há maior abandono e promiscuidade,
maior carência de informação, menor acesso
à contracepção, está a grande incidência
da gestação na adolescência. O contexto familiar
exerce influência direta com a época em que se inicia
a atividade sexual.
Estudos mostram que adolescentes que iniciam vida sexual precocemente
ou engravidam nesse período, geralmente vêm de famílias
cujas mães também iniciaram vida sexual precocemente
ou engravidaram durante a adolescência. Concluiu-se que,
quanto mais jovens e imaturos os pais, maiores as possibilidades
de desajustes e desagregação familiar.
O relacionamento entre irmãos também está
associado com a atividade sexual: experiências sexuais mais
cedo são observadas naqueles adolescentes em cuja família
os irmãos mais velhos têm vida sexual ativa. O medo
de assumir o início da vida sexual, e a falta de diálogo
dentro da própria família são grandes colaboradores
para uma gravidez precoce. O conflito gerado nas adolescentes
entre o "não" da família, e o "sim"
autoritário que impera na mídia, faz com que estas
busquem apoio, e raramente conseguem alguém para ouvi-las.
O resultado disso é que, ou não usam, ou se utilizam
dos métodos anticoncepcionais de baixa eficiência
(coito interrompido, tabelinha).
Os fatores psicológicos inerentes ao período da
adolescência exercem grande influência sobre esse
tipo de comportamento, pois a adolescente nega a possibilidade
de engravidar (isso não vai acontecer comigo). Essa negação
é tanto maior quanto menor a faixa etária; o encontro
sexual é mantido de forma eventual, não justificando,
conforme acreditam, o uso rotineiro da contracepção;
e a posse do contraceptivo seria a prova formal de vida sexual
ativa. O uso de drogas e bebidas alcoólicas compromete
a contracepção, além das que engravidam para
casar-se.
A gravidez e o risco de engravidar podem também estar
associados a uma baixa auto-estima, ao funcionamento intrafamiliar
inadequado ou à menor qualidade de atividades do seu tempo
livre. A falta de afeto e apoio da família, em uma adolescente
cuja auto-estima é baixa, com mau rendimento escolar, grande
permissividade e disponibilidade inadequada do seu tempo livre,
poderiam induzi-la a buscar na maternidade precoce um meio para
suprir suas carências, conseguindo um afeto incondicional,
talvez uma família própria, reafirmando assim o
seu papel de mulher, ou sentir-se ainda indispensável a
alguém.
A própria sociedade, além da família, tem
uma grande participação nas atitudes individuais
do adolescente. Com as profundas mudanças em sua estrutura,
a sociedade, atualmente, tem aceitado melhor a sexualidade na
adolescência, sexo antes do casamento e também a
gravidez na adolescência. Portanto tabus, inibições
e estigmas estão diminuindo e a atividade sexual e gravidez
aumentando. Por outro lado, dependendo do contexto social em que
está inserida a adolescente, a gravidez pode ser encarada
como evento normal, não problemático, aceito dentro
de suas normas e costumes.
Alguns trabalhos mostram que a religião tem participação
importante sobre o comportamento sexual do adolescente. Adolescentes
que têm atividade religiosa apresentam um sistema de valores
que os encoraja a desenvolverem comportamento sexual responsável.
É o caso do crescimento de novas religiões evangélicas,
que são, de um modo geral, bastante rígidas no que
diz respeito à prática sexual pré-marital.
Alguns profissionais de saúde que trabalham com adolescentes
têm a impressão de que as adolescentes que freqüentam
essas igrejas iniciam a prática sexual mais tardiamente,
porém, não há pesquisas comprovando essas
impressões.
A Organização Panamericana de Saúde atribui
o aumento do número de filhos de mães menores de
20 anos de idade ao fato de que "o conhecimento sobre a relação
sexual livre se difunde mais rapidamente entre os adolescentes,
que o conhecimento sobre os efeitos biológicos e psicológicos
adversos da gravidez nessa idade, tanto para a mãe quanto
para o filho". As implicações acarretadas por
uma gravidez precoce variam entre biológicas, familiares,
emocionais e econômicas, além das jurídico-sociais,
que atingem o indivíduo isoladamente e a sociedade como
um todo, limitando ou mesmo adiando as possibilidades de desenvolvimento
e engajamento dessas jovens na sociedade.
A OMS (Organização Mundial de Saúde/1977,1978),
considera a gravidez na adolescência como de alto risco,
devido às repercussões sobre a saúde da mãe
(seu corpo ainda não está formado adequadamente
para a maternidade) e do bebê (sofre a influência
da imaturidade física e psíquica da mãe).
Porém, atualmente postula-se que os riscos são mais
significativos socialmente e emocionalmente que biologicamente
para ambos. As conseqüências de uma relação
sexual que implica uma gravidez, aparecem tardiamente e a longo
prazo, tanto para a mãe, como para o bebê. Por um
lado, a adolescente poderá apresentar problemas de crescimento
e desenvolvimento, emocionais e comportamentais, educacionais
e de aprendizado, dificuldade em atividades sexuais futuras além
de complicações na gravidez e problemas no parto.
Por outro, dependendo do grau em que essas complicações
afetaram a vida dessa adolescente, as conseqüências
serão sofridas pelo bebê, como rejeição,
maus tratos, carência afetiva, entre outros.... Quanto mais
próximo à menarca, maiores as repercussões
nutricionais, pois o processo de crescimento ainda está
ocorrendo. Sendo assim, o crescimento materno pode sofrer interferências
por que há uma demanda extra requisitada para o crescimento
fetal. Lembramos ainda que na adolescência há necessidades
maiores de calorias, vitaminas e minerais e estas necessidades
somam-se àquelas exigidas para o crescimento do feto e
para a lactação.
Muitas vezes, por medo da reação da família,
ou da sociedade de um modo geral, a adolescente "esconde"
a gravidez o máximo possível, iniciando o pré-natal
tardiamente, ou até mesmo chegando ao parto sem ele.
As complicações obstétricas na adolescente
vão desde anemia, ganho de peso insuficiente, hipertensão,
infecção urinária, DST, desproporção
céfalo-pélvica, prematuridade, aborto, até
complicações puerperais. Para o bebê, baixo
peso ao nascer, Apgar mais baixo, doenças respiratórias,
trauma obstétrico, além de maior freqüência
de doenças perinatais e mortalidade infantil. Muitas dessas
complicações poderiam ser evitadas ou até
minimizadas com um pré-natal adequado. Deve-se considerar
que estes riscos se associam não só a idade materna,
ou ao pré-natal inadequado ou insuficiente, mas também
a outros fatores, como a baixa escolaridade, baixa condição
socioeconômica, intervalos curtos entre os partos (<
de 2 anos) e estado nutricional materno comprometido.
Quanto mais jovem for a mãe, ou quanto menor a idade ginecológica
(< de 2 anos), maior a tendência a complicações
biológicas. Devido à imaturidade e instabilidade
emocional podem ocorrer importantes alterações psicológicas.
Muitas vezes, a adolescente não consegue assimilar e trabalhar
de forma coerente a inversão de papéis, ou seja,
ser filha em segundo plano para ser mãe em primeiro, gerando
extrema dificuldade em adaptar-se à sua nova condição,
e exarcebando sentimentos que já estavam presentes antes
da gravidez, como ansiedade, depressão e hostilidade.
Essa insatisfação pelo "futuro não
planejado" acaba se tornando grande responsável pelo
alto número de separações entre jovens casais.
No caso da maternidade ou paternidade precoce de um adolescente,
contrariando os desejos dos adultos, pais ou profissionais, que
imaginam para seus filhos suas vidas organizadas por etapas -
escolarização, profissionalização,
trabalho, casamento, filhos - é de extrema importância
a atuação da família, não para punir,
mas para orientar sobre os deveres e responsabilidades na construção
da nova família.
Após o choque inicial com relação à
gravidez precoce, a família acaba por acolher a filha,
e dá total apoio durante a gestação. Porém,
após o nascimento, inicia-se um processo de cobrança
por parte da família, do tipo "ta vendo, agora você
não pode mais sair" ou "viu no que deu você
não me escutar?" e assim por diante, imaginando que
ao adotar essa postura, de que o filho foi uma castigo ou um erro,
a jovem irá evitar uma nova gravidez. Porém, só
servirá para diminuir a auto estima, aumentar sua necessidade
de afeto, carinho e apoio, e muito provavelmente a busca por uma
nova gravidez.
"No processo de maternidade precoce a família exerce
um papel fundamental sobre o bem estar físico e psíquico
da díade MÃE - BEBÊ, e nada se faz mais necessário
e gratificante do que a SOLIDARIEDADE."
Denise P. Bueno da Silva - Psicóloga/Doula
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