Células-tronco : O Brasil a um passo da criação
de órgãos em laboratório
Projeto de Lei de Biossegurança deixa de fora assuntos
fundamentais para a saúde pública.
Por Karla Bernardo
O especialista Radovan Borojevic afirma: O projeto de Lei de Biossegurança
não deve proibir os avanços da ciência.
Enquanto o mundo assiste a conquista de cientistas coreanos que
conseguiram produzir pela primeira vez células-tronco embrionárias
a partir de um embrião clonado com a finalidade terapêutica,
no Brasil assistimos a um momento não menos importante,
estamos acompanhando a tramitação do Projeto de
Lei de Biossegurança, que já foi aprovado pela Câmara
dos Deputados e agora segue para o Senado. Por enquanto muita
coisa importante ficou de fora, como a liberação
das pesquisas de clonagem humana para fins terapêuticos,
a liberação da manipulação de material
embrionário humano e a permissão para a doação
de embriões congelados para pesquisa, o que torna o texto
do Projeto de Lei muito limitado. O único consenso entre
cientistas, políticos e igreja é a proibição
da clonagem humana para fins reprodutivos.
Na opinião do especialista Radovan Borojevic, diretor
do programa avançado de Biologia Celular Aplicada a medicina
da UFRJ, uma lei eficiente é a que não proíbe
os avanços da ciência e que consegue de forma clara
determinar uma eficiente fiscalização para evitar
excessos “É preciso evitar experiências de
fundo de quintal e ao mesmo tempo dar infra-estrutura para os
cientistas”,afirma, o que concorda a Coordenadora do Centro
de estudos do Genoma Humano(USP), Mayana Zatz “Antes da
votação do texto final é fundamental que
os parlamentares entendam que a terapia celular com células-tronco,
incluindo as embrionárias, podem representar a esperança
de tratamento para milhões de pessoas”, destaca.
Atualmente cerca de 5 milhões de brasileiros sofrem com
doenças genéticas. As mais conhecidas do grande
público são diabetes, Mal de Alzheimer, Mal de Parkinson.
Segundo Radovan Borojevic, a terapia com células-tronco
tem o potencial de cura destas e de muitas outras doenças:
”Pode-se utilizar células-tronco embrionárias
para corrigir um organismo geneticamente defeituoso.Ao implantar
estas células embrionárias dentro do organismo (após
manipulação em laboratório), potencialmente
elas terão capacidade de se diferenciar em outras células
e terão a capacidade de promover uma regeneração
por que elas não vão ter o defeito genético
que o resto do organismo tem”, explica, afirmando que com
a utilização das células-tronco embrionárias
será possível criar órgãos sadios
e eliminar a necessidade de transplantes, acabando com o sofrimento
das longas filas de pacientes que aguardam e muitas vezes morrem
esperando a doação de órgãos.
Esta é a questão-chave quando se fala de terapia
com células-tronco e células-tronco embrionárias.
Segundo Radovan Borojevic, a vantagem da utilização
das células-tronco embrionárias é a grande
capacidade de proliferação, já que o embrião
é o início da vida . Elas são praticamente
ilimitadas.”Todas as nossas outras células contabilizam
o tempo. Células de uma pessoa de 20 anos são diferentes
de células de uma pessoa de 60. Todas as células
tem esta propriedade de envelhecimento e todas se esgotam com
100 anos. Este é o limite de vida biológico do ser
humano”, ensina .Células retiradas da medula óssea
(que formam o sangue) são células-tronco, mas são
limitadas já que elas possuem a idade do indivíduo
e não são capazes de se diferenciar em todos os
tipos de tecido, daí o interesse pela liberação
do uso de células-tronco embrionárias.
"É fundamental que os parlamentares entendam que
a terapia celular com células-tronco, incluindo as embrionárias,
podem representar a esperança de tratamento para milhões
de pessoas". Mayana Zatz
Uma outra fonte importante de células-tronco é
o sangue do cordão umbilical e da placenta. “Células
do cordão umbilical são equivalentes a da medula
óssea, com a vantagem única de que são células
de um feto, portanto, novas. Durante a vida fetal, grande parte
destas células crescem no fígado do feto, no momento
do parto elas migram do fígado para a medula óssea.
No parto uma parte do sangue do feto está dentro da placenta
e pode-se guardar estas células através de congelamento”.Esta
prática pode ser fundamental no caso do indivíduo
desenvolver uma leucemia, por exemplo.As células sadias
congeladas podem ser utilizadas eliminado a necessidade de um
doador compatível. A apresentadora do Jornal do Rio, da
Tv Bandeirantes, Aline Pacheco, optou por congelar as células
do cordão umbilical no nascimento de sua filha , Maria
Antônia, em 2001 “ Quando soube desta possibilidade
me senti na obrigação de tomar esta precaução
pela minha filha. Nós gastamos tanto dinheiro com uma série
de bobagens para os filhos e muitas pessoas deixam de congelar
o sangue do cordão por que acham caro” , lamenta
. Para ela, o fato de sua filha ter o recurso de poder utilizar
as próprias células para a cura de uma doença
não tem preço. Esta também é a opinião
de Radovan Borojevic “A probabilidade de se precisar é
de duas em 1000, porém, temos que considerar que as famílias
estão ficando cada vez menores, o que reduz a possibilidade
de se ter um doador compatível no caso do desenvolvimento
de uma doença.Na França, onde a saúde é
toda paga pelo Estado, é recomendado o congelamento das
células do cordão umbilical, principalmente para
famílias com pré-disposições a defeitos
genéticos como filhos de combatentes por exemplo”,
afirma.
“ Quando soube da possibilidade de congelar as células
do cordão umbilical me senti na obrigação
de tomar esta precaução pela minha filha”
Aline Pacheco .
Resultados práticos da terapia com células-tronco
no Brasil
As experiências com a utilização de células-tronco
no Brasil já estão apresentando resultados práticos
satisfatórios. Vários grupos já desenvolveram
a terapia celular em caráter experimental principalmente
em pacientes cardíacos e pacientes com queimaduras graves.
No caso do tratamento de problemas cardíacos em pacientes
que já não respondiam ás terapias tradicionais,
as células-tronco são retiradas da medula óssea
e são injetadas no coração do paciente. Estas
células vão se diferenciar no tipo celular necessário.Em
dezembro de 2001 quatro pacientes do Hospital Pró Cardíaco,no
Rio de Janeiro,foram submetidos ao tratamento desenvolvido pela
UFRJ e hoje eles já não precisam tomar remédios,
desapareceram os sinais clínicos anteriores. Quando o caso
é mais grave e o paciente necessita de um transplante de
coração, o procedimento é diferente: Retiram-se
células da medula óssea da bacia do paciente.As
mais imaturas são extraídas(células-tronco).
Elas são levadas para o Hospital Universitário do
Fundão,no Rio de Janeiro, onde são processadas(manipuladas).Ao
mesmo tempo outra equipe faz um mapa do coração
do paciente através de um cateter introduzido na virilha
para saber exatamente onde é a lesão. Em seguida
através de um sistema também via cateter é
introduzida uma micro injeção que contém
um conjunto de células que vão atuar dando origem
a artérias ou ajudando a recuperar o movimento do músculo
cardíaco enfraquecido, por exemplo.Este procedimento dura
apenas um dia e 24 horas depois da intervenção o
paciente tem alta.”Uma das principais vantagens deste tipo
de terapia é que ela é pouco invasiva”, explica
Radovan.
Para ele, cabe ao médico definir até que ponto
a terapia celular é indicada:
-Cada paciente possui um histórico. A terapia pode ser
utilizada como um tratamento complementar. Tem que ser avaliada
frente a outras terapias. Só pode ser utilizada se for
a melhor possibilidade para o paciente,explica.
No caso dos pacientes com queimaduras graves, as células-tronco
são retiradas e levadas para o laboratório onde
são manipuladas e preparadas para serem implantadas.Segundo
Radovan, cartilagens e mucosas que sofreram traumatismos graves
que não conseguem se regenerar também podem ser
tratadas com células-troco.
Para Radovan Borojevic, uma das principais barreiras na área
da pesquisa é a falta de verba para equipar os hospitais
públicos: ”O Brasil sempre ofereceu uma educação
superior muito boa. Formamos excelentes cientistas. Os alunos
que vão fazer cursos lá fora são muito elogiados.
O problema é a infra-estrutura deficiente nos hospitais
universitários no Brasil. Mesmo comparando com a Argentina,
um país que também apresenta problemas econômicos,
o Brasil fica atrás. O ensino público no Brasil
terá que ter um incremento muito grande. Investimento em
cabeças é a longo prazo, mas o retorno é
garantido”, afirma.
Em um país como o Brasil, que apresenta uma enorme demanda
por alternativas de saúde pública é necessário
que o esforço dos cientistas na área de células-tronco
não seja desperdiçado. Segundo Maria Helena Lino,
advogada e gerente do Projeto Ghente, com o avanço nas
pesquisas científicas e principalmente conhecendo os enormes
benefícios da utilização de células-tronco,
a sociedade vai sair perdendo se o Projeto de Lei de Biossegurança
for aprovado com o texto atual. “É importante que
a sociedade interfira no processo legislativo e exija seus direitos
como usuários de serviços de saúde”,
conclui.
2004: Cirurgia experimental no Hospital de Cardiologia de Laranjeiras.
O Hospital de Cardiologia de Laranjeiras através
da médica Helena Martino, chefe da unidade de Miocardiopatia
do Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras, promoverá
um experimento este ano com pacientes cardíacos. Serão
selecionados 30 pacientes para o experimento. Quinze receberão
o transplante de células diretamente no músculo
cardíaco. Os demais receberão as células-tronco
através das coronárias. A médica espera já
ter os resultados dois meses após a realização
da experiência. O projeto ainda aguarda aprovação
do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, órgão
do governo federal, mas a expectativa é que ainda este
ano o experimento seja realizado.