Reação paradoxal
Drauzio – Quero discutir esse ponto porque raras áreas
da ciência criaram dificuldade tão grande de comunicação
com a sociedade como essa do trabalho com células-tronco,
justamente porque, para obter células totipotentes, é
preciso fecundar um óvulo (o que é feito “in-vitro”,
não dentro do útero materno) e esperar multiplicar
algumas vezes para obter a célula-tronco. Isso criou um
debate, a meu ver descabido, que é o debate do abortamento,
como se estivesse sendo feito um pequeno abortamento “in-vitro”.
Ora, se pegarmos um adolescente que foi parar num hospital depois
de um acidente de moto e através de vários exames
for constatada sua morte cerebral, se a família estiver
de acordo, estamos autorizados a retirar o coração
e outros órgãos para transplantá-los numa
pessoa que precise. A sociedade não só aceita esse
ato da medicina como o considera louvável. No entanto,
qual foi o princípio que orientou esse procedimento? O
sistema nervoso tinha deixado de funcionar, não havia mais
condição humana e a vida era apenas vegetativa.
Agora, se pegarmos um óvulo, esperarmos que se multiplique
em poucas células, nas quais não existe o menor
esboço de sistema nervoso central, considerar isso um atentado
contra a vida não parece, no mínimo, uma coisa do
outro mundo?
Mayana Zatz – Acho que é uma coisa do outro mundo
e que existe muito desentendimento e desinformação,
porque a proposta é usar os embriões que sobram
nas clínicas de fertilização e vão
para o lixo.
Veja o que acontece. O casal tem um problema de fertilidade, procura
um centro de fertilidade assistida, juntam-se o óvulo e
o espermatozóide e formam-se os embriões. Normalmente
são dez, doze, quinze embriões, alguns de melhor
qualidade, mas outros malformados que não teriam a capacidade
de gerar uma vida se fossem implantados num útero e vão
direto para o lixo. Esses embriões descartados serviriam
como material de pesquisa para fazer a linhagem de células
totipotentes.
A segunda hipótese refere-se aos casais que já implantaram
os embriões, tiveram os filhos que queriam e não
vão mais recorrer aos embriões de boa qualidade
que permanecerão congelados por anos até serem definitivamente
descartados.
Drauzio – E esses também vão morrer…
Mayana Zatz – Esses embriões têm potencial
de vida baixíssimo. Muitos teriam potencial zero mesmo
que fossem implantados. No entanto, sabe-se que não serão
aproveitados e que, um dia, também serão jogados
no lixo.
Por incrível que possa parecer, quando se discute a utilização
desses embriões, o que mais se ouve dizer é que
estamos destruindo vidas. Na verdade, se há alguma destruição
é a das pessoas com doenças letais que estão
perdendo a possibilidade de serem tratadas a partir de células-tronco
embrionárias. Embora não se possa afirmar ainda
que esse tratamento exista, segundo tudo indica, é enorme
potencial que elas oferecem para consegui-lo.
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