Dieta e genética
A nova ciência que estuda as interações entre
genes e alimentos revela que a nutrição sob medida
é a senha para emagrecer e viver melhor.
(CRISTIANE SEGATTO)
Salmão para as artérias, soja para os hormônios,
tomate contra o câncer. E, de quebra, a dieta de emagrecimento
que é a última moda em Hollywood. Haja senso crítico
para filtrar as recomendações alimentares divulgadas
a todo momento como solução para todos - algo como
o éden ao alcance da mão. Vamos aos fatos: é
verdade que alguns nutrientes têm a capacidade de proteger
o organismo contra doenças. Mas ninguém sabe ao
certo por quais mecanismos essa brigada do bem atua nas células.
Ou quanto é preciso consumir de cada alimento para conquistar
o efeito terapêutico apregoado. Ou, ainda, por que alguns
regimes funcionam muito bem em alguns indivíduos e são
um fiasco para outros.
As dúvidas em relação aos alimentos são
tantas que deram origem a uma nova área da Ciência:
a nutrigenômica, que estuda as interações
entre nutrientes e genes humanos. Os cientistas têm pela
frente um trabalho semelhante ao da área farmacêutica,
que investiga como os medicamentos agem de forma diferente de
acordo com o perfil genético dos pacientes. É por
isso que alguns remédios beneficiam uma parcela dos indivíduos
e não fazem efeito em outros. Isso quando não produzem
uma reação adversa fatal.
Assim como acontece com os comprimidos, cada organismo relaciona-se
de um jeito próprio com os nutrientes. A era das diretrizes
válidas para todo mundo caminha para o fim. ''No futuro,
teremos recomendações para diversos subgrupos populacionais
com base na constituição genética de cada
um'', disse a ÉPOCA Jose M. Ordovas, diretor do Laboratório
de Nutrição e Genômica da Tufts University,
em Boston, nos Estados Unidos. Ordovas é um dos principais
líderes desse novo ramo, que também ganhou impulso
com a recente criação da Organização
Européia de Nutrigenômica, uma rede de 14 institutos
de pesquisa.
Esses esforços mostram que a personalização
das dietas é o segredo para quem pretende preservar a saúde
ou perder peso sem amargar o eterno efeito sanfona. É possível
que, nos próximos anos, os médicos possam solicitar
testes genéticos para checar a existência de mutações
que favorecem o aparecimento de determinadas doenças. E,
com isso, traçar estratégias alimentares capazes
de neutralizar a ação nefasta dos genes. Algumas
pessoas serão aconselhadas a comer mais brócolis,
outras a não passar perto de gordura, e assim por diante.
O objetivo da nutrigenômica não é jogar por
terra tudo o que o público já aprendeu sobre as
propriedades dos alimentos. As diretrizes básicas da alimentação
saudável, elaboradas por comitês especializados,
ainda são uma ferramenta indispensável para ensinar
noções de equilíbrio à mesa. O que
os cientistas pretendem é refinar as investigações
sobre as trocas bioquímicas entre os nutrientes e o organismo.
O equivalente a mergulhar com lupa na estrutura molecular dos
alimentos e ver como eles interagem no corpo.
FONTE: revista ÉPOCA de 07/fevereiro/2005 - Edicao 351
- A dieta do DNA