Boktai
Game Boy Advance
"Você vai querer trapacear, tentar enganar o sensor,
amar e odiá-lo"
Hideo Kojima, criador de "Metal Gear", talvez seja
um dos designers que mais se aproxima da definição
de artista. Ele gosta de brincar com a linguagem dos jogos eletrônicos,
usando diversos tipos de truque como metalinguagem para fazer
o público pensar sobre esse popular hobby. Mas ao invés
de se dedicar totalmente ao terceiro episódio da série
"Metal Gear", ele aproveitou seu tempo para fazer algo
sem precedentes: um título para Game Boy Advance que usa
a luz do sol como um importante elemento.
Em "Boktai" você é Django, filho de um
famoso caçador de vampiros. Tomando a pistola solar e cachecol
vermelho de seu falecido pai, Django começa uma longa jornada
para derrotar um morto-vivo que já causava problemas para
a família há tempos. Guiado por Otenko, o espírito
do Sol (na forma de um girassol narigudo voador - não pergunte),
o herói deve viajar por diferentes ambientes e passar por
uma jornada que revelará mais sobre sua família.
"Solvania"
Só que Gun del Sol, a arma de Django, depende da luz do
Sol para funcionar - literalmente. O cartucho traz um sensor luminoso
que capta certas freqüências luminosas e, assim, define
a velocidade com que a arma do protagonista recarrega sua munição.
Vale notar que esse sensor é bem esperto: luz de lâmpadas
não acionam a recarga (com exceção de luz
negra - acredite se quiser). A luz influencia inúmeros
aspectos do game, desde a munição até o crescimento
de plantas.
É possível jogar sem sol: todo tempo que você
joga no sol é armazenado na memória do game, que
enche um "banco solar" que pode ser acessado através
de máquinas espalhadas pelo game. Além disso, frutas
solares podem dar uma ajuda extra, e existem até bancos
para fazer investimento de luz solar e empréstimos. Claro,
sem a luz direta do Sol a experiência é bem mais
difícil (e por isso mesmo o jogo traz as técnicas
de furtividade de "Metal Gear" para evitar inimigos),
mas o Sol é absolutamente imprescindível nas batalhas
contra chefes.
Obra de mestre
No decorrer da aventura, Django encontra novas peças para
sua arma, que permitem diferentes tipos de disparo e até
tiros não-letais influenciados pelas fases da Lua (o jogo
tem um relógio e calendário internos). A variedade
do jogo é típica de uma obra de Kojima, trazendo
surpresas tanto na trama quanto na jogabilidade. Uma lista de
dezenas de itens oferecem poderes secretos que precisam ser desvendados...
segredos não faltam nesse cartucho. Alguns inimigos, por
exemplo, ficam invisíveis com luz, então você
precisa tapar o sensor para passar de uma determinada área.
Além do aspecto de ação e furtividade que
predomina em "Boktai", existe um considerável
número de quebra-cabeças envolvendo a movimentação
de blocos. Esse tipo de desafio clássico dos videogames
é recriado das mais diferentes maneiras e ajuda a diversificar
a aventura.
Idéia brilhante
No fim das contas o uso desse sensor é a estrela do dia.
Pela primeira vez na história dos videogames um fator externo
ao jogo é um elemento crucial na maneira como ele se comporta.
Você pode estar dentro de um calabouço, procurando
por uma janela para recarregar a arma... quando uma nuvem tapa
o sol e você fica à mercê dos zumbis. Esse
tipo de situação coloca o conceito de videogame
em uma perspectiva nova - e bastante interessante. Acredite -
você vai querer trapacear, tentar enganar o sensor, amar
e odiá-lo.
"Boktai" pode ser simplificado como "mais um jogo
de ação", e certamente se encaixa como um competente
esforço nesse sentido. Mas a luta com/contra o Sol não
falha em despertar o interesse de qualquer jogador. Acima de tudo,
o jogo é uma das mais interessantes experiências
feitas com videogames na atualidade. Se ao menos mais criadores
fossem ousados e criativos como Kojima...
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