Resident Evil 4
GameCube
"... uma mistura de um jogo de tiro em primeira pessoa com
a fórmula clássica da série..."
Assim como os zumbis se assemelham com a carcaça humana
de que um dia foram, a camada externa de "Resident Evil 4"
lembra os demais jogos da série, mas se comporta de maneira
totalmente diferente.
Este novo episódio desenrola a trajetória de Leon
S. Kennedy, personagem de "Resident Evil 2". Leon não
é mais um tira novato de Raccoon City, mas um agente secreto
do governo com a missão de resgatar a filha do presidente.
Para isso, ele é enviado a um pequeno vilarejo europeu,
onde acaba tropeçando em uma perigosa conspiração.
Os mais puristas ficarão surpresos em saber que "Resident
Evil 4" começa anos depois do fim da Umbrella, a corporação
responsável pela criação do vírus
que transforma todos em zumbis. Com o fim da empresa, a ameaça
biológica vira coisa do passado, bem como os monstrengos
molengas. No lugar, estão inimigos mais espertos e uma
antiga praga de proporções bíblicas.
O enredo desencadeia uma avalanche de mudanças. Para enfrentar
a nova horda o jogador não terá mais de ficar contando
quantos cartuchos de bala restam em seu inventário: a munição
é à vontade. Isso sem sequer citar a mecânica
do jogo e as situações. Mesmo assim, "Resident
Evil 4" mantém raízes e é uma legítima
continuação.
As mudanças são todas bem-vindas. O sistema original
copiado de "Alone in the Dark" trazia problemas sérios
que foram amplificados com mudanças como o limite de itens
carregados pelo protagonista. O controle estilo "tanque de
guerra" - ao mover o direcional para o lado, o personagem
gira em torno do próprio eixo, ao invés de andar
na direção acionada - permanece e pode decepcionar,
mas não se deixe enganar: "Resident Evil 4" é
um jogo totalmente novo.
El forastero!
"Resident Evil 4" mistura tiro em primeira pessoa com
a fórmula clássica de sobrevivência da série.
A câmera agora segue logo atrás do protagonista,
oferecendo não apenas a capacidade de mirar com precisão,
mas também adiciona a tensão de ver o mundo pelos
olhos do personagem. Quem estranhou o formato Widescreen do jogo
logo entenderá a razão: ela serve pra aumentar o
campo de visão. O jogador não verá mais zumbis
se aproximando lentamente das costas de Leon. É preciso
estar sempre alerta ao seu redor, já que é fácil
ser surpreendido. Nessas horas, a visão panorâmica
do cenário salva vidas.
A atmosfera de "Resident Evil 4" é o coração
da experiência. O game não se contenta em simplesmente
reciclar o velho truque de surpreender você com um cachorro-zumbi
quebrando a janela quando você menos espera. Agora os sustos
são gerados ao ser perseguido constantemente por dúzias
de pessoas possuídas (mais rápidas e eficientes
em pôr fim à vida do herói) em meio a uma
tempestade noturna iluminada pelas tochas dos monstros. Muitas
das situações são inspiradas em filmes clássicos
de terror, e a aposta da Capcom rende uma infinidade de momentos
excelentes.
Em "Resident Evil 4", o clima de tensão é
muito mais palpável, já que não é
preciso racionalizar se será preciso ou não gastar
munição com uma determinada ameaça. O game
oferece balas suficientes para matar todos os inimigos, mas sua
resistência e velocidade maiores exigem habilidades diferentes:
saber escolher entre atirar no braço do oponente para derrubar
sua arma ou atingir o rosto para causar mais dano é uma
escolha que deve ser feita em uma fração de segundo
muitas, e muitas, vezes.
A aventura de Leon escapa dos padrões antigos por vários
motivos: o progresso do jogador é quase totalmente linear,
explicando claramente para onde o personagem deve ser levado.
O velho costume de ficar dando voltas por uma mansão se
foi - felizmente, isso é compensado por uma variedade que
lembra muito "Metal Gear Solid". Além de oferecer
ambientes e situações diferentes em sucessão
constante, o desafio é complementado por uma série
de chefes criativos e numerosos. Isso sem contar as situações
inusitadas que a presença de Ashley - a filha do presidente
- permite e as personalizações infinitas que o novo
sistema de itens oferece.
Essas mudanças bruscas têm seu preço: o progresso
pelo game é muito mais rápido e ágil. Apesar
de passar uma impressão de ser bastante curto, o game dura
cerca de 12 horas - o que não deixa de ser relativamente
longo nos padrões da série, se você ignorar
o tempo que era gasto ao morrer e refazer passos nas edições
anteriores. Os extras, que prolongam a vida útil do jogo
e são marca registrada da série, ajudam a amenizar
essa sensação de "já acabou", mas
é provável que os fãs peçam por mais
do que os dois discos do jogo oferecem.
Pero que las hai...
O game traz alguns defeitos menores, alguns dos quais foram importados
de outros títulos da série: a trama e os diálogos
continuam bastante forçados, e a incapacidade de se mover
atirando e andar de lado fazem falta. Além disso, as falas
da população dessa misteriosa vila em espanhol prometem
algumas risadas. Mas nenhum desses problemas consegue arranhar
a qualidade geral do game.
"Resident Evil 4" conseguiu a proeza de não
perder o espírito da série ao mesmo tempo em que
corrige seus principais problemas e oferece uma experiência
totalmente nova e cativante. Tanto quem não gostou como
quem amou os capítulos anteriores deve experimentar essa
recriação genial da Capcom - especialmente os fãs
dos jogos de terror.
Por hora, "Resident Evil 4" é exclusivo para
GameCube. Mas essa nova aventura terá uma versão
para PlayStation 2 com alguns extras cujo lançamento está
previsto para o final de 2005.
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