Lord of the Rings: The Third Age
GameCube
"... faltou conhecimento para produzir os elementos de RPG,
mas isso é compensado na produção técnica"
Depois de explorar os filmes da série "O Senhor dos
Anéis" com jogos de ação e estratégia,
a Electronic Arts mergulhou em um dos gêneros que mais prometem
empolgar os fãs de Tolkien: um RPG. "Third Age"
segue eventos inéditos paralelos ao filme, enquanto copia
descaradamente "Final Fantasy X", da Square Enix. Mas
a falta de experiência no gênero e a tentativa de
fazer um jogo acessível a todos tiraram parte do mérito
do produto final.
Aragorn esteve aqui
Como mencionado, "Third Age" se desenrola de forma
marginal aos eventos dos filmes de Peter Jackson, contado as aventuras
de Berethor, um cavaleiro de Gondor que procura Boromir. Ele acaba
se juntando a outros personagens, incluindo os tradicionais arquétipos
de elfo, anão e "ranger", e juntos passam por
muitos dos cenários da Terra-média visitados pelos
heróis da Sociedade do Anel.
Quem reclamou da falta de liberdade de "Final Fantasy X"
ficará ainda mais decepcionado com "Third Age":
jogadores são colocados em mapas pequenos e lineares com
poucas bifurcações (que eventualmente levam ao mesmo
destino), passando por cenários que são claramente
divididos em fases inspirados em lugares como Moria, Rohan e Minas
Tirith. No decorrer da travessia desses corredores, jogadores
enfrentaram inimigos em batalhas que copiam o sistema de luta
do popular RPG da Square Enix, resolvendo uma série de
objetivos quase todos obrigatórios, mas os opcionais podem
ser resolvidos apenas explorando o resto do mapa (que aparece
na tela).
Às armas!
O combate é claramente o foco do game: personagens não
ganham dinheiro e não visitam cidades tradicionais de RPGs
com lojas, e mesmo as interações de conversas com
NPCs (personagens não jogáveis) são as mais
restritas já vistas no gênero. As lutas nos mapas
se restringem a dois tipos: obrigatórias em pontos chaves
do mapa e opcionais. Essa segunda variedade acontece em locais
pré-definidos - se o jogador ficar muito tempo em um local
onde o Olho de Sauron brilha, um combate eventualmente acontece.
Com exceção de algumas batalhas surpresas antes
de baús espalhadas pelo caminho, quase todas são
anunciadas.
Apesar dessa fórmula que parece mais voltada para um game
como "Diablo" ou "Demon Stone", a luta é
baseada em turnos. Exatamente como em "Final Fantasy X",
retratos dos personagens e inimigos mostram no canto da tela a
ordem de uso. Até três personagens podem ficar no
campo de batalha de cada vez, e podem ser trocados em qualquer
turno do jogador, sem perder a iniciativa. Ataques são
divididos em convencionais, magias e golpes especiais - cada qual
rendendo pontos de experiência únicos para liberar
novas habilidades escolhidas pelo jogador - muito similar ao visto
na continuação de "Final Fantasy X".
Mesmo quem não tem experiência em RPGs não
terá dificuldades na maioria das batalhas do jogo. Os golpes
especiais são bastante destrutivos, e levando em conta
que energia e magia são completamente recarregados ao salvar
o game (e existem diversos pontos para isso em cada mapa), cruzar
boa parte do game sem maiores problemas não requer habilidade
e nem sorte. Exatamente por causa disso, alguns chefes podem parecer
desafiadores, mas são mais fáceis que os da maioria
dos RPGs.
Bere-quem?
Para os fãs do gênero, o game ainda traz outro problema
sério: enredo e personagens não são desenvolvidos
com muito cuidado. Quase toda a trama é contada através
de uma narração "telepática" de
Gandalf (dublado pelo ator Ian McKellen), com montagens de cenas
do filme ao fundo. Algumas poucas cenas 3D do jogo mostram os
personagens jogáveis interagindo. A maior parte da trama
fala da Sociedade do Anel, que aparece apenas em poucos momentos
da aventura e os eventos mais dramáticos dos protagonistas
são descritos por Gandalf, mas não mostrados. Tudo
isso dificulta qualquer envolvimento emocional do jogador. A impressão
é que game e trama são elementos completamente separados,
juntados artificialmente por equipes diferentes durante a produção
do software.
O RPG tenta oferecer alguns extras além das limitadas
jornadas opcionais na forma de uma modalidade cooperativa e o
"Evil Mode", mas ambos são fracos. O modo cooperativo
(totalmente offline em todas as versões) simplesmente divide
o controle dos personagens entre dois jogadores, enquanto "Evil
Mode" é uma reunião de batalhas da aventura
que liberta itens especiais com o diferencial que o jogador controla
os vilões. Essa última opção nem oferece
opção de exploração, apenas cola lutas
em seqüência direta.
Mas se faltou conhecimento para produzir os elementos tradicionais
do gênero, a equipe tentou compensar isso na produção
técnica. "Third Age" recria os ambientes do filme
com grande detalhe, além de oferecer uma trilha sonora
fiel ao longa-metragem e uma dublagem competente. Pequenos detalhes,
como cada pedaço de novas armadura e armas mudarem a aparência
dos personagens, não passam desapercebidos e reforçam
o cuidado em reproduzir o universo fantástico de Tolkien.
"Third Age" é uma prova que a criação
de um RPG tradicional exige um tipo de experiência e longos
cronogramas de produção que não podem ser
substituídos por um orçamento generoso. Apesar disso,
os não-iniciados no gênero que gostam de Tolkien
podem ver isso como uma alternativa light para mergulhar novamente
na deliciosa Terra-média.
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