FIFA Street
GameCube
"O repertório de dribles e jogadas plásticas
é vasto..."
Desde a apresentação dos comerciais da Nike envolvendo
os maiores astros do futebol mundial fora das quadras - aqueles
que apresentavam os craques como gladiadores, batalhando na arena
em disputas insanas de habilidade, velocidade e precisão
- muitos se perguntavam como aquela experiência poderia
ser recriada. A Electronic Arts encontrou a resposta.
O selo EA Big, especializado em atividades extremas e versões
radicais de esportes tradicionais, colocou o conceito em prática.
O resultado, apesar de ter sua parcela de diversão, traz
alguns problemas típicos de um primeiro jogo de um novo
estilo.
Carretilhas, calcanhares e canetas
Ao selecionar grandes astros do futebol mundial (são 250
no plantel do jogo), colocá-los em equipes de quatro jogadores
(goleiro mais três), diminuir os espaços e aumentar
a possibilidade de realizar jogadas plásticas (são
várias manobras e jogadas possíveis, além
dos combos), a EA Big deve ter visualizado um enorme potencial
- provavelmente real. Mas, mesmo soando como um sonho, "FIFA
Street" tropeça mais do que os jogadores em suas jogadas
fora do comum... e quando comparado com os outros "Street"
mais experientes, parece ainda pior.
O visual não apresenta significativa melhora comparado
com os esforços de "FIFA 2005" e "UEFA Champions
League 2005", apesar de trazer menos jogadores. Os craques
são facilmente identificados, mesmo com a bola rolando.
O ambiente explora locais como campo de terra na África,
quadra de basquete remodelada nos Estados Unidos, cimento em meio
às favelas brasileiras e outros espaços urbanos
na Alemanha, França e outros cenários que vão
sendo revelados conforme o progresso no jogo. Você não
vai jogar uma legítima pelada de rua como o título
pode sugerir: "Street" é mais uma modalidade
que uma localidade.
Antes da bola rolar em uma partida amistosa, por exemplo, o jogador
escolhe craques entre as principais seleções mundias
(que podem ser alternados dentro da seleção da esquadra).
Os controles são facilmente assimilados, em pouco tempo
já se tem idéia do potencial do sistema: há
dois botões próprios para desenvolver os dribles
mais humilhantes, enquanto o direcional secundário realiza
jogadas apenas com rápidos toques. A configuração
se completa com um último botão que simplesmente
faz um truque aleatório, para quem não quer usar
o outro direcional. Juntos, é possível fazer um
enorme estrago na defesa do oponente.
O repertório de dribles e jogadas plásticas é
vasto: pode-se usar a tabela para passar pelo adversário
(a bola nunca sai, a única pausa é quando sai gol
ou quando o goleiro está em posse da pelota), dar chapéus
simples, chapéu de carretilha (quando se joga a bola com
o calcanhar pelo alto), rolinhos, pedaladas... vai faltar vocabulário
futebolístico para descrever tudo. Até passe enquanto
se planta bananeira é uma opção. Bicicletas,
voleios, chutes de primeira e outras conclusões também
são realizadas com certa facilidade. Esse lado mais divertido
e lúdico, associado à velocidade incessante da partida,
são os principais trunfos de "FIFA Street". Quando
se está jogando, mal dá para respirar.
Erros grosseiros
Mas o deslumbre com "FIFA Street" passa rápido,
ou pelo menos a paciência do jogador fica mais curta quando
entra no modo de jogo mais desenvolvido, o "Rule the Street"
(algo como "Mande na Rua"). Mesmo que a distração
seja grande com uma enorme coleção de recompensas,
a jogabilidade exageradamente simples é muito gritante
para passar desapercebida.
Logo quando se pega o jeito, os defeitos ficam ainda mais claros.
A inteligência artificial de todos estes craques estelares
é muito baixa: ninguém persegue a bola quando ela
não está em seus pés. Mesmo em dribles que
a bola bate na parede na realização de uma tabela,
muitas vezes o jogador que iniciou o lance parece totalmente desinteressado
em completá-lo. Quando vai ser driblado, o craque praticamente
perde qualquer reação e muitas vezes é humilhado
pelo adversário. Os goleiros, por sua vez, são capazes
de operarem verdadeiros milagres em um momento (salvarem três
chutes à queima-roupa em seqüência) e engolirem
frangos homéricos, além de serem totalmente indecisos
para sair do gol. Uma certa sensação de lentidão
também fica patente: se seu jogador pegou uma bola de frente
para o gol, em um rebote, é difícil chutar logo
de cara.
A física da bola é um dos mais sérios culpados,
desobedecendo qualquer lógica. Já que se trata de
um jogo totalmente baseado na habilidade dos personagens, não
haveria problema se a gravidade não fosse a mesma da Terra
- afinal, é um jogo de videogame. Porém, não
há explicação para a variação
de velocidade da bola, que pode parecer ser feita de barro - e
então, em questão de segundos, papel. Para completar,
o próprio jogo tem variação de cadência:
em contra-ataques, fica mais rápido; com muvuca na área,
com todos os jogadores na tela, fica devagar.
Diversão com restrição
O modo carreira tem boa lógica de desenvolvimento, permitindo
a criação de um jogador personalizado para ser cultivado,
procurando nos grandes craques mundiais companheiros de pelada.
Começando do nada, a equipe formada por jogadores de padrão
técnico não muito alto vai aos poucos ganhando reputação
e pontos suficientes para crescer na competição.
Assim pode destravar e enfrentar craques em partidas acirradas,
conforme novos cenários e campeonatos vão aparecendo.
Há também o modo Star Team, que permite que se
forme seleções estelares com os principais craques
do planeta. É apenas outro jeito de realizar partidas amistosas.
É nele, porém, que se mostra mais estranho o padrão
de hierarquia entre os jogadores, elegendo apenas um número
(uma espécie de média entre todos os atributos:
passe, força, habilidade, precisão de chute) para
separar o joio do trigo. Se são todos craques, a forma
de diferenciá-los deveria ser mais importante do que é.
Mesmo com todas as críticas, "FIFA Street" é
um jogo bastante competente. Com seus elementos analisados separadamente,
é um título bastante problemático para uma
série da importância que tem. Mas o estilo é
promissor e merece um carinho maior de seu fabricante em termos
de acabamento e conteúdo, não só uma estrutura
de marketing gigantesca por trás de seu lançamento.
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