| Harry's, o bar das invenções
geniais
Mal se abriu a porta do bar
do Hotel Europa-Britannia, um dos mais prestigiados de Veneza
- e já entraram quatro americanos sedentos. Chegaram às dez
e meia da manhã e ao meio-dia saíram para almoçar. Voltaram
à tarde, para nova sucessão de tragos. Fizeram o mesmo à noite.
Por dois meses repetiram o ritual etílico. Estavam hospedados
no hotel. A figura mais importante do grupo era o estudante
Harry Pickering, que sofria uma forma inicial de alcoolismo
e afogava em coquetéis o tédio de viajar pelo mundo sem amigos.
Acompanhavam-no a velha tia assanhada, seu jovem gigolô e
um cachorro pequinês. O quarteto ingressava no bar e solicitava
coquetéis ao experiente barman Giuseppe Cipriani. Encerrava
a sessão com uma dose dupla de Bourbon e Seven-Up. O cãozinho
felpudo bebia água mineral com gás.
Um dia Harry brigou com a tia
e seu parceiro. O casal se aborreceu e partiu.
O dinheiro começou a escassear,
o estudante a se endividar e a beber cada vez menos. Cipriani
ficou preocupado com a situação. Harry e ele haviam se tornado
amigos. O barman chegou a confidenciar ao cliente o sonho
secreto de abrir o próprio bar. Cipriani socorreu Harry, emprestando-lhe
dez mil liras, o que não era pouca coisa na época. O amigo
pagou as contas e regressou aos Estados Unidos. Passaram-se
meses sem nenhuma notícia do viajante. Os colegas de Cipriani
achavam que ele não teria o dinheiro de volta.
Em fevereiro de 1931, Harry
voltou, saudou efusivamente Cipriani e falou: "Obrigado
pela ajuda. Eis a soma que me emprestou. Agora, tome um pouco
mais de dinheiro. É para abrirmos um bar em sociedade."
As notas somavam 40 mil liras. "A casa se chamará Harry's
Bar", acrescentou. Os dois foram sócios por algum tempo,
até Harry vender sua parte a Cipriani. Sentia falta de vocação
para o comércio. Sempre que ia a Veneza, porém, aparecia ali.
Sentava-se no balcão, quase
sempre no mesmo lugar, e bebia seus coquetéis.
"Nos primeiros anos, foi
um grande cliente de si mesmo", afirmava Cipriani, falecido
em 1980 aos 80 anos de idade.
Nasceu assim o melhor bar do
mundo, inaugurado em maio de 1931. Cipriani contou a história
que relatamos num dos capítulos do livro La Leggenda dell'Harry's
Bar, escrito pelo seu filho Arrigo (Harry em italiano) e publicado
em 1997. Sete décadas depois, a casa permanece no mesmo endereço,
na Calle Vallaresso, 1323, a cem passos da Praça São Marcos.
Ir a Veneza e não conhecer o Harry's Bar é como ir a Roma
e não ver o papa ou ir a Paris e não subir na Torre Eiffel.
Já se deliciaram com seus coquetéis personalidades como Ernest
Hemingway, Winston Churchill, Pablo Picasso, Arturo Toscanini,
Guglielmo Marconi, Somerset Maugham, Aristóteles Onassis,
Maria Callas, Orson Welles, o Duque de Edimburgo, Truman Capote,
Henry Kissinger, Sophia Loren, Luciano Pavarotti, Woody Allen,
Aga Kahn e sua mulher, a estonteante Begum. Segundo Arrigo
Cipriani, atual administrador da casa, "a mais bela mulher
que já passou por aqui, incluindo as profissionais".
Além de preparar coquetéis
concebidos em outros balcões do mundo, como o Dry Martini,
Daquiri, Screwdriver, Negroni, Manhattan, Bloody Mary e Americano,
o Harry's Bar tem criações próprias. Uma de suas invenções
geniais é o Bellini, surgido em 1948. Mistura uma parte de
polpa de pêssego e três do espumante italiano prosecco di
Conegliano. Antigamente, só existia Bellini na época dos pêssegos.
Desde o aparecimento do freezer, a polpa da fruta é congelada.
O coquetel pode ser feito todo o ano.
Pintura - O pêssego é
descascado e passado no chinois. O nome do Bellini homenageia
o pintor homônimo. Cipriani, seu criador, amava as artes plásticas.
Giovanni Bellini (1430-1516), mestre da pintura veneziana
do Renascimento e um dos pioneiros na técnica da pintura a
óleo, era um de seus ídolos. Apesar de doce, o coquetel encanta
homens e mulheres. Campeão de pedidos no Harry's Bar, tem
preço elevado. Cada copo sai por 13 dólares. Mesmo assim,
na alta temporada são vendidos 600 coquetéis por dia.
O bar é a atividade mais importante
da casa. Desde a fundação, faz-se ali ótima comida tradicional.
O cardápio oferece antipasti, zuppe, primi e secondi piatti,
doces, sorvetes e até um menu do dia. O prato forte - e outra
grande invenção do Harry's Bar - é o carpaccio. A receita
original manda cortar em lâminas uma peça de contrafilé fresco,
nunca congelado. A seguir, são dispostas no prato como as
cartas de um baralho. Finalmente, recebem um molho à base
de maionese e worcestershire sauce, suco de limão, um pouco
de leite, pimenta branca moída e sal. O nome foi dado por
Cipriani em 1950, quando o criou. Inspirou-se no veneziano
Vittore Carpaccio (1460-1526), cujos quadros apresentam os
mesmos tons vermelhos de mais uma obra antológica de Cipriani.
O molho do prato é desenhado
em formato de grade, com o garfo. Evoca os traços do pintor
russo Vassily Kandinsky (1880-1938), que abriu caminho para
a arte abstrata. Cipriani afirmou haver criado o carpaccio
para uma amiga e cliente, a condessa Amalia Nani Mocenigo.
Submetida à severa dieta, ela estava proibida pelo médico
de comer carne cozida ou assada. Inconformada com o espartilho
alimentar, pediu socorro ao fundador do Harry's Bar.
Cipriani foi à cozinha e voltou
com o carpaccio. O preço do prato sempre foi salgado. Atualmente,
há dois tipos de porção, pesando entre 40 e 60 gramas.
A menor custa 42 dólares; a
outra, 53. Ainda assim, somadas as duas opções, a cozinha
prepara cerca de 200 porções diárias de carpaccio.
Ao contrário de seus concorrentes
venezianos, o Harry's Bar não possui instalações luxuosas.
Sua decoração discreta, com madeira e tecido nas paredes,
foi orientada pelo barão Gianni Rubin de Cervin, um amigo
refinado de Cipriani. Mas respeitou as convicções do dono.
A idéia era deixar os clientes à vontade. A casa tem boa luz,
mas não excessiva. Cipriani detestava locais muito claros
e muito escuros. Preconizava o meio termo. "A luz forte
deixa o ambiente pouco caloroso", dizia. "E na penumbra
a gente acaba falando em voz baixa e contida." O Harry's
Bar ocupou um local onde antes havia um magazine de cordas.
Primeiro Cipriani o alugou. Depois, comprou. No início, o
salão media apenas 5 metros por 9. Hoje, a casa possui dois
andares. O de cima foi incorporado em 1960. No térreo cabem
60 pessoas sentadas. No outro, 70.
Clientes fundamentalistas só
consideram o térreo. O escritor americano Gore Vidal, por
exemplo, que vive em Roma, recusa-se a freqüentar o primeiro
andar. As mesas e cadeiras são baixas e confortáveis. Logo
na entrada, à esquerda, encontra-se o balcão. "A posição
estratégica é para dar apoio ao tímido que acabou de entrar",
teorizava Cipriani. "Poucos fazem idéia de quantos tímidos
se refugiam no bar. Talvez todos os que apareçam sejam um
pouco, inclusive aqueles que não aparentam." O Harry's
Bar só permaneceu fechado na 2.ª Guerra Mundial, entre os
anos de 1943 e 1945.
Sedutor - Já apareceram
centenas de explicações para o sucesso e mística da casa.
Cipriani sorria vitorioso quando lhe pediam sua versão. "Aqui
o cliente sempre encontra três coisas - qualidade, sorriso
e simplicidade", respondia. Competente e sedutor, o pai
do Harry's Bar era mestre em conquistar pessoas e fazer amigos.
No depoimento do livro de Arrigo, ele conta que entre seus
primeiros clientes havia um inglês.
Quando sóbrio, falava pouco.
Após beber três ou quatro Dry Martini, soltava a língua. Mesmo
assim, Cipriani ignorava o que fazia em Veneza. Sabia apenas
seu nome: Collin Hawks. Um dia apareceu no Harry's Bar e declarou:
"Parto hoje." Tomou uns goles, enrolou a língua
e pediu informação de como chegar à Piazzale Roma, ponto de
saída da cidade.
Com a dificuldade que tinha
para falar, Cipriani imaginou que precisaria no mínimo de
uma semana para chegar ao destino. Então, ofereceu-se para
acompanhá-lo. Hawaks aceitou a ajuda. Na Piazzale Roma, estendeu-lhe
a mão e agradeceu. Duas semanas mais tarde, um cliente irrompeu
no Harry's Bar com um exemplar do jornal inglês Daily Mail
e gritou a Cipriani: "Leia o que se fala aqui de você!"
O texto contava maravilhas da gente de Veneza: "No Harry's
Bar, existe Giuseppe Cipriani (...). Procurando-o, você encontrará
uma cidade amiga e sem mistérios que o acolherá de braços
abertos." Hawaks era redator do Daily Mail. Desde então,
outros jornais estrangeiros louvaram o bar das invenções geniais.
Apelido - Meca internacional
de bebedores, santos ou pagãos, nobres ou plebeus, sobretudo
daqueles que se comovem quando o barman lhe entrega o coquetel
favorito, o Harry's Bar coleciona histórias divertidas. Hemingway,
outro amigo de Cipriani, passou por ali quando estava na fase
do Dry Martini. Pedia o coquetel pelo apelido de Montgomery.
Cipriani decifrava o código.
Preparava para Hemingway um Dry Martini com gin e vermouth,
nas mesmas proporções usadas pelo célebre general inglês no
campo de batalha: 15 soldados para cada inimigo.
Certa vez, apareceram seis clientes
italianos. Por engano, pediram Dry Martini. Nem sequer conheciam
o coquetel. Queriam na verdade Martini, o vermute. Mas provaram
e gostaram da novidade. Beberam rápido e ficaram alegres.
Pagaram a conta e foram embora. Voltaram meia hora depois,
ainda alegres. Solicitaram outra meia dúzia de Dry Martini.
Quando Cipriani serviu a primeira rodada, viu que na roupa
de cada um havia um papel afixado e nele a seguinte inscrição:
"Devo voltar à Mantova. Se alguém me encontrar, leve-me
à Piazzale Roma às 6,30 horas." No ano passado, o Harry's
Bar ganhou o status de "bem cultural" do governo
italiano, ou seja, passou a ser protegido como monumento histórico.
Nada mais justo.
(© O Estado de S. Paulo)
CARPACCIO
ORIGINAL
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Carpaccio:
o molho do prato deve ser desenhado em formato
de grade, com o garfo, para evocar os traços
do pintor Kandinsky, que abriu caminho para
a arte abstrata |
Ingredientes
Carne
1.300 kg de contrafilé de boi novo
Sal a gosto
Molho
185 g de maionese
2 colheres (chá) de molho inglês
1 colher (chá) de suco de limão
2 a 3 colheres (sopa) de leite, aproximadamente
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora a gosto
Preparo
Carne
Limpar muito bem a
carne, retirando qualquer traço de gordura ou de
nervos, obtendo assim um cilindro. A carne depois
de limpa deve ficar com cerca de 650 g.
Colocar a carne na
geladeira, coberta com papel filme e só retirar
depois que estiver gelada (nunca congelada).
Cortar a carne em
lâminas finas (não transparentes), com uma faca
bem afiada.
Dispor as lâminas
sobre os pratos, cobrindo-os inteiramente.
Pulverizar ligeiramente
com sal e retornar à geladeira, pelo menos por cinco
minutos.
Molho
Numa tigela, colocar
a maionese, o molho inglês, o suco de limão e bater
manualmente, até os ingredientes ficarem bem emulsionados.
Por fim, misturar
o leite aos poucos, em quantidade suficiente para
obter um molho de boa consistência, que possa ser
espalhado com o dorso de uma colher de pau. Temperar
com sal e pimenta.
Montagem
Distribuir o molho
sobre as lâminas de carne, com um garfo, desenhando
traços em formato de grade. Servir em seguida.
Rendimento: 6 porções
(© O Estado de S. Paulo)
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