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Quando a pomba que Noé soltou da arca voltou, trazendo no
bico um ramo verde de oliveira, o patriarca hebreu concluiu
que as águas haviam baixado e o dilúvio acabado. Cumprindo
ordem divina, ele enfrentou chuvas torrenciais por 40 dias
e 40 noites, com a família e um casal de cada espécie animal.
Ao receber o sinal de estiagem, mandou abrir a porta da arca
e descobriu que estava parado sobre um cume vulcânico a que
deu o nome de Ararat, hoje localizado na fronteira entre Rússia,
Irã e Turquia. Essa história bíblica, repetida há séculos,
envolve de magia a oliveira - árvore de cujo fruto se extrai
o azeite (palavra derivada do árabe "az-zait", suco
da "az-zaituna", a nossa azeitona), precioso óleo
vegetal, de uso tão antigo quanto a civilização.
Falamos da "Olea europae",
planta que ao lado da videira foi uma das primeiras a ser
cultivadas. Isso ocorreu há 6 mil anos, na região onde se
encontram atualmente a Síria, o Líbano, a Palestina e Israel.
Dali se transferiu para o Egito, Fenícia e Grécia. A seguir,
atingiu as regiões mediterrâneas da Europa e África. Hoje,
pode ser encontrada em outros continentes, na América do Norte
e do Sul, além de países como África do Sul, Austrália e Nova
Zelândia.
A oliveira prefere lugares com
verões quentes e secos, invernos frios, mas não demasiadamente
gelados, submetidos a temperaturas vizinhas do zero. Não exige
solos de alta qualidade e, por isso, adapta-se a terrenos
pedregosos.
Tem porte médio, folhas estreitas,
cor verde-escura na parte superior e prateada na inferior.
Demora de quatro a cinco anos para dar frutos e outros dez
ou 15 para atingir a maturidade produtiva. Em compensação,
é uma das plantas mais longevas.
Na Espanha e Itália, primeiro
e segundo lugar na produção mundial de azeite, há oliveiras
com 500 anos. Essa também é a idade das existentes no Monte
das Oliveiras, próximo a Jerusalém, onde Jesus foi aprisionado.
Mas os espertos guias turísticos afirmam ser contemporâneas
do nascimento do cristianismo, 2 mil anos atrás. Muitos visitantes
se ajoelham e rezam diante daquelas supostas testemunhas de
Jesus.
Árvore grega - A oliveira
mais velha do mundo, com aproximadamente 1.200 anos, encontra-se
em Atenas, na Grécia. Cada árvore fornece entre 15 e 50 quilos
de azeitonas por ano, transformadas em 3 a 10 litros de azeite.
Inicialmente, todos os frutos são verdes. À medida que amadurecem
no pé, vão escurecendo. Quando ficam pretos, estão completamente
maduros.
O azeite - produto que, no passado,
também era usado como combustível para iluminar casas e ungüento
medicinal - resulta da prensagem e centrifugação do sumo da
azeitona, que curiosamente não pode ser consumida "in
natura".
Muito amarga, só se torna saborosa
quando curtida em água e sal ou em solução alcalina.
Da mesma forma que a invenção
do vinho, é difícil precisar quando surgiu o azeite. Os gregos
reivindicam a paternidade. Mas se apóiam em uma lenda - e
não em fundamentos históricos. Segundo sua mitologia, a técnica
foi inventada por Aristeu, filho de Apolo e da ninfa Cirena.
É certo, porém, que a transformação da azeitona em óleo constitui
atividade antiqüíssima. A mais antiga referência documental
ao azeite se encontra em um papiro egípcio do século 12 a.
C., no qual o faraó Ramses III oferece ao Deus-Sol os olivais
espalhados em torno da cidade de Heliópolis: "Destas
árvores pode ser extraído o óleo mais puro para manter acesa
as lâmpadas do teu santuário."
Além disso, até o século passado
foi uma atividade familiar. Hoje, com o aprimoramento da técnica,
o consumo mundial tendo crescido 2,6% entre 1999 e 2000, a
produção anual encostando em 2,5 milhões de toneladas, tornou-se
predominantemente industrial. Controlado pelo Conselho Oleícola
Internacional (COI), com sede em Madri, o azeite apresenta
cada vez mais qualidade. Corretamente elaborado, mantém o
aroma, sabor e nutrientes da fruta.
A popularidade da dieta mediterrânea,
praticada em alguns países europeus, contribuiu para aumentar
o prestígio do azeite. Na década de 70, pesquisadores americanos
descobriram que, associado a uma alimentação à base de verduras,
hortaliças, cereais, carnes, ovos, laticínios, peixes, mariscos
e frutas, ele proporciona todos os nutrientes necessários
à preservação da saúde.
Estatisticamente, protege o
coração do enfarte, retarda os danos do cérebro provocados
pelo envelhecimento, diminui o risco de câncer e aumenta a
longevidade. Mesmo em culinárias que não privilegiam o equilíbrio
dietético, como a brasileira, o uso do azeite se torna saudável.
Antigamente, a cozinha nacional usava banha de porco. Só na
década de 60 incorporou definitivamente as gorduras e os óleos
vegetais.
Furo avarento - O azeite,
importado e caro, ficava quase sempre restrito à salada. Vinha
em latas, onde a dona de casa fazia um furinho avarento. Raramente
ia à panela. Mesmo assim, aparece em pratos tradicionais,
como a carne-seca com quibebe que apresentamos aqui, procedente
do Rio. Também se destaca nas receitas da caldeirada de camarões
e caranguejos do Maranhão, da moqueca do Espírito Santo e
da galinha de cabidela da Bahia.
Qual o tipo de azeite ideal
para a cozinha? Todos servem. Alguns cuidados, porém, devem
ser tomados. Por apresentar aroma e sabor delicados, o extravirgem
deve ser utilizado cru. Aprecia-se melhor as suas qualidades
em saladas, maioneses e outros molhos frios, em fatias de
pão fresco ou sobre o macarrão e a sopa recém servidos no
prato.
Levado ao fogo, o azeite suporta
altas temperaturas, devido aos elevados índices de ácidos
graxos mono-insaturados e anti-oxidantes. Mesmo em frituras,
conserva as propriedades. Em que país se faz o melhor azeite?
Todos os membros do COE, responsáveis
por 97% da produção mundial, comprometem-se a elaborar um
produto de qualidade. São 24: Alemanha, Argélia, Áustria,
Bélgica, Chipre, Croácia, Dinamarca, Egito, Espanha, Finlândia,
França, Grécia, Irlanda, Israel, Itália, Iugoslávia, Líbano,
Luxemburgo, Marrocos, Países Baixos, Portugal, Reino Unido,
Síria e Suécia.
Diferenças - Mas existem
diferenças. Como o vinho, o azeite é um produto cujas características
organolépticas (que impressionam os sentidos) variam conforme
a região de origem.
Os espanhóis tendem a apresentar
aromas ricos, com um toque de nozes, mas também podem ser
frutados e herbáceos. O seu sabor é igualmente variado. Os
italianos fazem azeites para todos gostos. O aroma vai do
docemente frutado, com sabor delicado, ao perfume de nozes,
com retrogosto pungente. Os azeites gregos exalam aromas campestres.
Os franceses são suaves, doces e frutados.
Os portugueses se mostram fortes,
mas já existem alguns elegantes.
Na Espanha e Itália, sobretudo,
começam a aparecer azeites varietais, ou seja, elaborados
com uma única azeitona, repetindo o que aconteceu com os vinhos
derivados das uvas Cabernet Sauvignon e Chardonnnay, por exemplo.
Os consumidores exigentes aplaudem a novidade. Com mais opções,
terão maior prazer em descobrir os segredos milenares do azeite.
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