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Comida italiana só com pedigree
O Ministério da Agricultura da Itália
pretende fiscalizar os restaurantes italianos espalhados pelo mundo
para ver se as receitas servidas seguem as originais criadas naquele
país
Os italianos estão querendo saber se as
nossas macarronadas são mesmo iguais às que eles fazem
lá. O Ministério da Agircultura da Itália anunciou
ontem que planeja lançar, ainda este mês, uma agência
para fiscalizar os restaurantes italianos espalhados pelo mundo.
A idéia, segundo o ministro da Agricultura
italiano, Giovanni Alemanno, é verificar se as receitas servidas
nas cantinas fora da itália são fiéis às
receitas tradicionais italianas - ou se o nome 'ristorante italiano'
que muitos usam serve apenas como atrativo.
Para Alemanno, é importante que os pratos
vendidos como italianos sejam preparados com ingredientes originais,
pois só assim os clientes poderão conhecer melhor
a culinária do país e se interessar em procurar esses
ingredientes nos supermercados.
Para o restauranteur italiano Giovanni Brunno
- dono do Il Sogno di Anarello, que vive no Brasil há decadas
e é um dos responsáveis pela vinda de muitos pratos
da culinária italiana para cá - , a idéia do
ministro Alemanno não vai funcionar. "Apesar de eu preparar
pratos verdadeiramente italianos, não sou contra os restaurantes
que fazem adaptações", disse. "Em nenhum
lugar do mundo a culinária japonesa é idêntica
à do Japão, assim como em nenhum lugar a italiana
é igual à da Itália. Acho as adaptações
saudáveis", diz Brunno.
Giovanni Brunno, porém, faz questão
de lembrar que o Brasil se sairia muito bem nessa fiscalização
por causa do grande número de imigrantes italianos que vieram
para cá. "Assim como eu, muitos donos de cantinas que
conheço ainda fazem receitas que aprenderam com os pais italianos."
Nada de errado com as adaptações
Outro aspecto que Giovanni Brunno faz questão
de ressaltar: há misturas necessárias para a sobrevivência
do restaurante. "Se eu não tiver batatas fritas para
servir ao filho do cliente ele vai embora. Vou dizer que não
tenho porque não é um prato da Itália?"
João Lellis, dono da Lellis Tratoria, que
funciona há 21 anos em São Paulo, questiona em primeiro
lugar se o governo italiano pode fazer isso. "Se puder, posso
dizer da minha parte: nós não seguimos rigorosamente
as receitas dos prato italianos. Eu aprendi a cozinhar com italianos
do Gigetto, portanto eu aprendi a essência da cozinha italiana.
Mas, na minha cantina, a gente usa a criatividade -- até
pela facilidade de acesso que temos com os produtos."
Ele afirma ainda que alguns dos seus clientes
dizem ir à Itália e voltam decepcionados. "Eles
preferem os pratos brasileiros." João Lellis é
descendente de italiano mas nasceu na Bahia, por isso optou por
incorporar muitos temperos baianos às suas receitas.
Fiscalização pode previnir abusos
O proprietário da cantina e pizzaria Castelões,
Fábio Donato, condena a medida, mas diz que uma regulamentação
no meio gastronômico italiano em São Paulo seria salutar.
"Acho que seria arbitrário se essa medida viesse de
outro país, embora eu mesmo seja descendente de italianos.
Mas seria interessante termos uma fiscalização para
que os abusos não se proliferassem na cozinha italiana."
Ele dá exemplos: "Há muitas pessoas se considerando
chefs de cozinha e não são. Há quem não
conheça quais os melhores temperos, quem faz combinações
absurdas e quem não tem habilidade para preparar insumos.
Há problemas na manipulação de carnes, verduras
e outros alimentos."
(© Jornal da Tarde)
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