O que é clonagem terapêutica
Quem responde é Mayana Zatz, professora titular de Genética,
coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano - Depto. de
Biologia, Instituto de Biociências da Universidade de São
Paulo (USP)
- A clonagem terapêutica, muitas vezes confundida com terapia
celular, é a transferência de núcleos de uma
célula para um óvulo sem núcleo. Ela nada
mais é do que um aprimoramento das técnicas hoje
existentes para culturas de tecidos, que são realizadas
há décadas.
A grande vantagem é que, ao transferir o núcleo
de uma célula de uma pessoa para um óvulo sem núcleo,
esse novo óvulo ao dividir-se gera, em laboratório,
células potencialmente capazes de produzir qualquer tecido.
Isso abre perspectivas fantásticas para futuros tratamentos,
porque hoje só é possível cultivar em laboratório
células com as mesmas características do tecido
de onde foram retiradas.
A clonagem terapêutica teria a vantagem de evitar rejeição,
se o doador fosse a própria pessoa. Seria o caso, por exemplo,
de reconstituir a medula em alguém que se tornou paraplégico
após um acidente ou substituir o tecido cardíaco
em uma pessoa que sofreu um infarto.
No caso de portadores de doenças genéticas não
seria possível usar as células da própria
pessoa (porque todas têm o mesmo defeito genético),
mas de um doador que fosse compatível, por exemplo, a mãe
de um afetado por distrofia muscular progressiva.
Cientistas coreanos anunciaram ter clonado embriões humanos,
pela primeira vez, para obter células-tronco. Isso é
clonagem terapêutica?
Sim. O estudo confirmou a possibilidade de obter células-tronco
pluripotentes com a clonagem terapêutica ou transferência
de núcleos.
O trabalho foi feito graças à participação
voluntárias que doaram óvulos e células cumulus
(células que ficam ao redor dos óvulos) para contribuir
com as pesquisas.
As células cumulus, que já são células
diferenciadas, foram transferidas para os óvulos dos quais
haviam sido retirados os próprios núcleos. Dentre
esses, 25% conseguiram se dividir e chegar ao estágio de
blastocisto e, portanto, capazes de produzir linhagens de células-tronco
pluripotentes.
Entretanto, essa técnica só teve sucesso quando
a célula cumulus e o óvulo pertenciam à mesma
mulher. Os pesquisadores coreanos relatam também que não
obtiveram sucesso quando usaram células masculinas, o que
mostra que essa técnica ainda tem limitações.
Qual é a diferença entre clonagem terapêutica
e clonagem reprodutiva?
A clonagem reprodutiva humana, condenada por todos os cientistas,
é a técnica pela qual pretende-se fazer uma cópia
de um indivíduo. Nessa técnica, transfere-se o núcleo
de uma célula, que pode ser uma célula de um adulto
ou de um embrião, para um óvulo sem núcleo.
Se o óvulo com esse novo núcleo começasse
a se dividir, fosse transferido para um útero humano e
se desenvolvesse, ter-se-ia uma cópia da pessoa de quem
foi retirado o núcleo da célula.
A diferença fundamental entre os dois procedimentos é
que:
1) Na transferência de núcleos para fins terapêuticos
as células são multiplicadas em laboratório
para formar tecidos;
2) A clonagem reprodutiva humana requer a inserção
em um útero humano.
Por que a clonagem terapêutica é um assunto polêmico?
Toda tecnologia nova gera polêmicas. Os argumentos das
pessoas que se opõem à clonagem terapêutica
são: isso vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva,
isso vai gerar um comércio de óvulos e embriões.
Nesse sentido é fundamental lembrar que existe um obstáculo
intransponível, que é o útero. Basta proibir
a transferência para o útero de embriões produzidos
por clonagem terapêutica.
Quanto ao comércio de óvulos ou embriões,
é a mesma situação que ocorre hoje com comércio
de órgãos. Qualquer tecnologia tem seus riscos e
benefícios.
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