Células-tronco são esperança
para portadores de doenças genéticas
LEONARDO MEDEIROS
da Folha Online
Apesar da proibir a pesquisa com embriões, a Lei de Biossegurança,
aprovada em fevereiro pela Câmara dos Deputados e em tramitação
no Senado, é contraditória, pois deixa uma brecha
para a clonagem terapêutica.
Se de um lado essa brecha pode ser útil, no futuro, para
o tratamento, por exemplo, de pessoas tetraplégicas, por
outro não resolve o problema de quem sofre com doenças
genéticas degenerativas.
"É preciso que o governo e a sociedade pensem no futuro
porque a cura dessas doenças não virá em
um mês, mas para as futuras gerações",
afirma o designer gráfico aposentado Maurizio Fioretti,
41, portador da distrofia muscular de Becker, um distúrbio
progressivo que causa fraqueza dos músculos mais próximos
do tronco e atinge apenas pessoas do sexo masculino.
No caso de Maurizio, os primeiros sintomas começaram a
surgir ainda criança, com uma sensação de
cansaço. "Eu não conseguia acompanhar as outras
crianças. Nos jogos, era sempre o café-com-leite",
conta.
Já aos 12 anos, Maurízio apresentava dificuldades
em subir escadas e iniciou uma série de exames que não
conseguiram detectar qual era seu problema. A confirmação
só veio mesmo em 1998, quando pôde fazer um exame
de DNA na USP (Universidade de São Paulo) que diagnosticou
a síndrome.
"O problema evoluiu lentamente. Há dez anos, eu estou
em cadeira de rodas e há um ano eu uso equipamento que
me ajuda a respirar durante a noite. Atualmente, eu preciso de
auxílio para praticamente tudo", diz Maurizio.
Usuário assíduo da internet e estudioso de artigos
científicos, ele acompanha os avanços das pesquisas
com células-tronco e da legislação a respeito.
Por esta razão, se diz inconformado com a tramitação
da Lei de Biossegurança e com a posição dos
grupos religiosos.
"As pesquisas com células-tronco trazem esperança
para mim e para muita gente. E, se a Igreja quer que a gente tenha
fé, não pode deixar a gente perder a esperança."
Outro que acompanha atentamente o noticiário por meio
da internet e torce para a aprovação das pesquisas
com células-tronco embrionárias é o engenheiro
mecânico aposentado Shiroshi Wagatsuma, 60, portador de
Esclerose Lateral Amiotrófica, a mesma doença que
afeta o astrofísico britânico Stephen Hawking.
"Entendi na carne o significado da palavra 'aposentado' pois
vejo o mundo fluir da janela do meu aposento", disse Shiroshi
em uma entrevista por e-mail, já que a doença comprometeu
sua capacidade de falar.
Diagnosticado em 1996, os primeiros sintomas começaram
a surgir após algumas quedas e com a sensação
de fraqueza na perna direita.
Esportista na juventude, pós-graduado pelo ITA (Instituto
Tecnológico de Aeronáutica) e pela FGV (Fundação
Getúlio Vargas) e funcionário de uma multinacional
por 30 anos, Shiroshi agora depende de cuidados para a maioria
das atividades diárias.
"Como não consigo desempenhar atividades físicas
para ocupar a mente, passo muito tempo em frente ao computador,
pesquisando na internet ou fazendo cursos on-line", conta.
Antes da votação do Projeto de Biossegurança
no plenário da Câmara, Shiroshi enviou um e-mail
aos líderes e vice-líderes de todos os partidos
solicitando apoio à normatização do uso das
células embrionárias para fins terapêuticos.
"É enorme minha expectativa em relação
ao uso de células-tronco para a cura de doenças
do neurônio motor. Para uma pessoa acometida por uma doença
incurável, progressiva, limitante, incapacitante, humilhante,
haverá outra saída?", finaliza.
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