Cientista da USP defende pesquisas com
células-tronco embrionárias
LEONARDO MEDEIROS
da Folha Online
Aprovada na Câmara dos Deputados, a Lei de Biossegurança
representou uma derrota para a comunidade científica. Após
mudanças de última hora, o texto que foi a plenário
determinava o veto às pesquisas com células embrionárias.
Antes da votação, porém, os cientistas fizeram
sua parte, tentando mostrar aos deputados a importância
da regulamentação das pesquisas com células-tronco
para o avanço do tratamento de inúmeras doenças.
Entre eles estava Mayana Zatz, 55, coordenadora do Centro de
Estudos do Genoma Humano da USP (Universidade de São Paulo).
Reconhecida internacionalmente por sua pesquisa com distrofia
muscular, seu trabalho atual se concentra na obtenção
de células-tronco do cordão umbilical para o tratamento
de doenças degenerativas.
Em entrevista à Folha Online, Zatz defende um ponto polêmico:
a pesquisa com embriões para a extração de
células-tronco. "Quando nós falamos de embriões,
muita gente acha que nos referimos a fetos, com perninhas e bracinhos.
Mas nos referimos a montinhos de células [...] que têm
um potencial de vida baixíssimo", afirma.
Para a cientista, o Brasil não pode abrir mão das
células embrionárias por uma questão de saúde
pública. "[...] muitos pacientes não têm
tempo para esperar até descobrirmos se as células
do cordão umbilical são suficientes ou não.
Precisamos trabalhar com as duas hipóteses ao mesmo tempo."
Folha - Não é direito da sociedade decidir sobre
os rumos da ciência e do conhecimento humano? No caso, se
é correto fazer pesquisas com embriões?
Mayana Zatz - Acho muito importante [a participação
da sociedade na tomada de decisões], porém eu noto
que existe uma grande desinformação. Quando nós
falamos de embriões, muita gente acha que nos referimos
a fetos, com perninhas e bracinhos. Mas nos referimos a montinhos
de células menores que a cabeça de um alfinete,
a embriões que têm um potencial de vida baixíssimo.
O mesmo aconteceu quando se pensou em fazer transplantes de órgãos.
Também houve uma revolta na sociedade, mas hoje muitas
vidas são salvas.
Folha - Os grupos religiosos defendem o veto às pesquisas
embrionárias porque acreditam que a vida começa
na concepção. Para a ciência, quando começa
a vida?
Zatz - A ciência tem uma visão, que eu acho bastante
interessante, segundo a qual não existe começo ou
fim: a vida seria um ciclo. Ou seja, um embrião se forma,
se desenvolve e um dia vai produzir células germinativas
que vão originar um novo ser. Levando em conta esta filosofia,
para um embrião congelado, que não tem qualidade
para formar uma vida, o ciclo acabou. Mas se, a partir deste embrião,
forem extraídas células-tronco que podem curar,
por exemplo, uma criança acometida por uma doença
letal, estaremos mantendo o ciclo da vida.
Folha - Se o Senado aprovar a lei da maneira como recebeu da
Câmara, o que isso significa para as pesquisas científicas?
Zatz - Significa que não vamos poder fazer pesquisas com
células embrionárias. Há poucas semanas,
um grupo de coreanos pediu patente porque conseguiu fazer linhagens
de células-tronco embrionárias. Isso quer dizer
que nós já vamos ter que pagar royalties se não
conseguirmos fazer pesquisas no Brasil
Folha - A legislação atual deixa brechas para a
pesquisa com células-tronco?
Zatz - A legislação atual não é muito
definida. Mas hoje a gente não pode fazer pesquisas com
células embrionárias. As clínicas de fertilização
jogam os embriões no lixo, mas não cedem para pesquisa
porque podem ser punidas.
Folha - Que mudanças a comunidade científica deseja
para o projeto de biossegurança?
Zatz - Duas coisas são fundamentais. A primeira é
a permissão para pesquisas com células embrionárias
e a segunda, agilidade nas decisões. Não adianta
permitir a pesquisa, mas os comitês de ética levarem
três anos para aprovar qualquer projeto.
Folha - Como estão as pesquisas com células-tronco
atualmente?
Zatz - Nosso grupo está trabalhando com células-tronco
do cordão umbilical. Mas, por enquanto, só há
experiências, ninguém testou ainda em pacientes.
Por outro lado, a gente tem visto trabalhos novos com células-tronco
embrionárias comprovando a potencialidade destas células
em se diferenciar em qualquer tecido. Eu quero muito que as células
de cordão umbilical funcionem porque o problema estaria
resolvido. Mas não podemos abrir mão de testar as
células embrionárias porque muitos pacientes não
têm tempo para esperar até descobrirmos se as células
do cordão umbilical são suficientes ou não.
Precisamos trabalhar com as duas hipóteses ao mesmo tempo.
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