Agronegócios: Os Caminhos do Agronegócio Brasileiro

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Fonte do texto: Internet

Os Caminhos do Agronegócio Brasileiro
por Carlos Nayro Coelho

Em termos de evolução da sociedade, as últimas décadas foram notáveis no sentido de sepultar velhas idéias e teorias acerca do desenvolvimento econômico das nações, e a década de noventa, foi particularmente importante no sentido de definir as tendências que sem dúvida dominarão o processo de formulação de políticas macroeconômicas nos anos vindouros, com reflexos poderosos em todo o agribusiness mundial e nacional.

Na área econômica, estão praticamente cristalizadas as seguintes tendências: redução do nível de intervenção do Estado na economia, integração cada vez maior dos mercados mundiais com maior competição e maior peso das variáveis sociais e ambientais no cálculo econômico.

O processo de intervenção do Estado na agricultura tem sido bem mais complexo porque tem ocorrido em alta escala, de maneira mais ampla e persistente que em outros setores, tanto nos países desenvolvidos como nos países desenvolvimento. Nos primeiros, ocorreu na forma de transferências ou subsídios para proteger o setor contra oscilações nos preços e na renda (geralmente dentro da ótica da segurança alimentar e do principio da paridade), com fortes tendências a se perpetuar. Nos demais, aconteceu via taxação, confisco cambial etc, para extrair os excedentes necessários ao financiamento do processo de desenvolvimento.

De qualquer maneira, entre os estudiosos dos problemas agrícolas, existe uma quase unanimidade de que, em nível mundial, tanto os produtores agrícolas como os consumidores foram prejudicados com o excesso de intervenção. A conclusão básica é que o excesso de intervenção prejudicou o esforço global de desenvolvimento (restringindo as exportações da grande maioria das nações em desenvolvimento), trazendo crescentes doses de sacrifícios para as populações envolvidas e provocando uma redução considerável no nível de consumo de alimentos em função da manutenção de preços artificialmente elevados nos mercados domésticos.

Para delinear os prováveis caminhos do agronegócio brasileiro, a médio e longo prazos, é necessário primeiramente entender que a base do agronegócio é a agricultura. Portanto, esse setor não pode ser visto com um setor estanque ou isolado dentro da economia, com forte tendência de queda na participação do Produto Interno Bruto nacional na medida em que o processo de desenvolvimento ocorre.

A agricultura deve ser vista como o centro dinâmico de uma série de atividades econômicas, que envolvem as atividades de produção agrícola propriamente dita (lavouras, pecuária, extração vegetal), aquelas ligadas ao fornecimento de insumos nas ligações para trás (backward linkages), as relacionadas com o processo agroindustrial e as que dão suporte ao fluxo de produtos até a mesa do consumidor final, nas ligações para a frente (forward linkages). Nesse sentido, no suporte à produção vinculam-se com o setor agrícola as indústrias de fertilizantes, defensivos, máquinas e equipamentos agrícolas,financiamentos (crédito rural para investimento e custeio), pesquisa agropecuária e os transportes desses insumos.

Na fase de distribuição e processamento vinculam-se os transportadores dos produtos agrícolas, a agroindústria, os agentes financeiros que apoiam a comercialização, os armazenadores e o comércio (atacado e varejo), neste último encaixando-se inclusive o importante subsetor de alimentação comercial (restaurantes, lanchonetes, bares, etc). O agronegócio representa aproximadamente 28% do PIB total do Brasil, que em 2001 alcançou perto de R$ 1,3 trilhões e é responsável pelo emprego da maior parte da População Economicamente Ativa (PEA) do país.

O potencial do agronegócio nacional em termos de área cultivável impressiona. A área total de mais de 210 milhões de hectares (24% do território nacional) da região dos cerrados equivale à metade da área total do México, e nela ainda estão inexplorados cerca de 90 milhões de hectares, uma área equivalente à toda a área da China e dos EUA, que são os dois maiores produtores mundiais de grãos.

Nesse contexto,o Brasil tem condições de operar em larga escala no agronegócio internacional, pois é o único país no mundo, com uma infra estrutura razoável, que dispõe em abundância do fator de produção mais escasso em escala mundial: terra agricultável. O que é preciso é que se busque o máximo de eficiência em todos os elos da cadeia produtiva e que o Setor Público crie um ambiente econômico favorável ( que envolve basicamente a modernização da infra-estrutura logística e mudanças na estrutura tributária e nas leis trabalhistas) para que o agribusiness nacional possa operar com segurança e competitividade na conquista de novos mercados e procure com mais vigor e determinação eliminar as distorções que ainda afetam o comércio internacional.

Na área externa as medidas podem ser divididas em duas categorias. A primeira envolve a implantação de um eficiente sistema de promoção comercial e a segunda de uma diplomacia comercial mais dinâmica e agressiva.

O sistema de promoção comercial já é utilizado em larga escala pelos grandes exportadores mundiais e envolve duas variantes: financiamento das exportações e marketing. Na primeira, o papel do governo brasileiro seria criar mecanismos apropriados de financiamento às exportações considerando a mesma sistemática adotada pelos outros países exportadores. Nas exportações agrícolas, devido às características cíclicas da agricultura e ao elevado grau de competitividade dos mercados agrícolas, esses mecanismos são cruciais. Na segunda ( marketing), a política envolveria, em primeiro lugar, a alocação de recursos destinados exclusivamente à promoção dos produtos brasileiros no exterior, com base em dois objetivos: ampliação dos mercados tradicionais e criação de novos mercados. A outra categoria envolve o estabelecimento de uma diplomacia comercial mais agressiva, atuando concretamente para eliminar as barreiras comerciais existentes contra produtos agrícolas brasileiros em alguns países.

Para que o Brasil formule uma estratégia de longo alcance, existe um amplo leque de alternativas, ainda pouco explorado pelo governo e pelos empresários brasileiros na área externa, como o uso em escala compatível com o tamanho da economia brasileira dos modernos mecanismos de promoção comercial.

O Brasil, por exemplo, por meio de uma estratégia de promoção comercial mais agressiva tem condições de tirar proveito imediato da expansão mundial da demanda de alimentos, principalmente de alimentos com elasticidade-renda elevada. Como se sabe, essa expansão decorre principalmente do efeito-preço, que surgiu em função de um certo grau de liberalização obtido na Rodada Uruguai, em algumas áreas como lácteos, bebidas, frutas e carnes, em grandes mercados (como União Européia e Japão), antes dominados por rígidos esquemas protecionistas, e do efeito-renda, ampliado em função do elevado índice de crescimento econômico de alguns países em desenvolvimento, principalmente os asiáticos.

Quais seriam então os setores mais dinâmicos do comércio agrícola mundial, e os países onde o Brasil teria condições de explorar com maior vantagem e penetrar com escala e segurança nos próximos anos?

De acordo com os dados da FAO, os grandes complexos exportadores mundiais que apresentaram maior dinamismo, ou seja, maior índice de crescimento no mercado internacional na década de noventa e que, portanto, oferecem melhores perspectivas no novo contexto do comércio mundial, com maior liberalização e maior crescimento da renda per-capita são: vinho, lácteos, óleo de palma, frutas, carnes e soja.

Em todos esses produtos os esforços de exportação devem ser concentrados, sem esquecer logicamente os produtos em que o País já é grande e tradicional exportador, como café, açúcar, suco de laranja, couros etc.

Além disso, o Brasil dispõe das condições ideais para aproveitar um novo segmento do mercado agrícola mundial que está crescendo de forma acelerada, principalmente nos países desenvolvidos, e que já movimenta mais de US$ 20 bilhões ao ano: a agricultura natural ou biológica. Essa cadeia produtiva envolve produtos que vão do café aos diversos tipos de cereais e carnes. Dependendo do produto e do país, os consumidores estão dispostos a pagar prêmio de até 200% sobre o preço do produto comum. O Brasil dispõe do maior rebanho bovino "verde" do mundo e de vários locais já produzindo produtos naturais.

No contexto atual, o mercado asiático é o que oferece as melhores perspectivas, em termos de uma expansão em alta escala das exportações do agribusiness brasileiro, em função de três fatores importantes: a) a entrada da China na OMC; b) o Governo japonês aparentemente se convenceu de que a recuperação da economia japonesa depende de maior abertura para o comércio exterior; c) a rápida recuperação dos tigres asiáticos; d) os países da Ásia continuarão sendo os maiores importadores de alimentos do mundo; e) são países que detêm uma posição financeira externa invejável em termos de reservas, saldos em conta corrente etc.

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